21 jun 2017

‘Sobre ratos e homens’: um clássico que não perde validade

Cena de ‘Sobre ratos e homens’ em cartaz no CCBB. Crédito: Luciano Alves

Prepare-se para os dez minutos finais de Sobre Ratos e Homens. O espetáculo em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil pode ser considerado um clássico. Foi escrito por John Steinbeck em 1937. Para aquela época, tratou de um tema contemporâneo: o impacto que a crise de 1929 deixava na vida das pessoas.

Lá se vão 80 anos. A história de Sobre Ratos e Homens continua sendo contemporânea porque, muito além de crise, fala sobre a carência humana em diversas dimensões. E já que é um clássico, é um texto que não deixa pontas soltas ao tocar questões como racismo, preconceito, a relação com as mulheres. Tudo o que aparece na dramaturgia faz sentido na história. Inclusive as metáforas sobre amizade.

A montagem em cartaz até 17 de julho foi a vencedora do APCA em 2016 de melhor espetáculo. Tem outros prêmios no currículo. Todos merecidos. É dirigido por Kiko Marques e tem elenco grande: são oito atores. Aqui está um dos pontos altos, em especial a dupla protagonista interpretada por Ricardo Monastero e Ando Camargo.

Enredo

Em linhas gerais, Sobre Ratos e Homens conta a história dos amigos George (Ricardo Monastero) e Lennie (Ando Camargo) que perambulam entre as fazendas no interior dos Estados Unidos em busca de trabalho. Carregam cevada para juntar dinheiro e comprar um pedaço de terra.

Se George é mais esperto e diplomático, Lennie é ingênuo e muito forte. Eles vivem para cuidar um do outro. No fim da peça você vai perceber que esse cuidar tem um sentido metafórico e até controverso. Aí está parte da potência dessa história.

Cenário de Marcio Vinicius é bastante impactante. Quando entramos no CCBB-BH, mesmo apagado, já é algo que chama atenção. A iluminação de Guilherme Bonfanti dá sentido ao inanimado e potencializa o clima de cada cena. A trilha sonora de Martin Eikmeier quase passa despercebida, mas funciona bem ao pontuar as tensões necessárias.

O espetáculo é dividido em três atos. O diretor não se apressa para contar a história daqueles amigos. Ainda bem, já que cada coadjuvante que aparece traz também uma camada de reflexão social. As mais óbvias – e importantes – dizem respeito ao negro e à mulher.

Curiosamente, os dois personagens são excluídos e vivem a procura de atenção. A demanda deles, no entanto, é recebida com preconceito e interpretada de outras maneiras. Temas que fizeram pensar em 1937 e que parecem não ter evoluído muito.

EM TEMPO

Ratos e Homens, o texto original de foi adaptado pelo menos 15 vezes para cinema e televisão. Ainda na década de 1930, o diretor Lewis Milestone fez a primeira versão para a telona estrelada por Burgess Meredith, Betty Field, Lon Chaney Jr., Bob Steele. No Brasil, em 1953, Lima Duarte protagonizou o teleteatro produzido pela TV Tupi com direção de Cassiano Gabus Mendes. A primeira tradução para o português foi feita por Erico Veríssimo em 1940.

Ou seja, não estamos falando de nada novo, mas algo que não envelhece.

Continua após a publicidade

Gostou? Compartilhe!

Artigos Relacionados

Cinco peças da Campanha que o Culturadoria viu e recomenda

Nightvodka A parceria do Grupo Armatrux com o diretor Eid Ribeiro é de longa data. Mesmo assim, eles conseguiram sair de uma zona de conforto para fazer Nightvodka. O espetáculo se inspira na literatura de Svetlana Alexijevich. É um potente flerte com a performance. Quando vi achei a primeira parte da peça um pouco arrastada, […]

Leia Mais

Política cultural chama atenção no lançamento da Campanha de Popularização 2018

As novidades anunciadas na abertura da Campanha de Popularização estão muito mais no campo da legislação cultural do que propriamente no cardápio de atrações artísticas. Em 2018 o tradicional evento da cidade vai até o dia 04 de março. A expectativa é que atraia 250 mil espectadores durante as oito semanas. O café da manhã […]

Leia Mais

“O Rei da Vela”: Antropofagia Oswaldiana revisitada

Por Márcia Mendonça O que há em comum entre a montagem da peça O Rei da Vela, de 1967, e a de hoje? Qual a atualidade do texto de Oswald de Andrade? São épocas, espaços e contextos diferentes. Cinquenta anos separam a estreia do espetáculo, na turbulenta década de 1960, na capital paulista, da remontagem de […]

Leia Mais