Resistência como a palavra de ordem para a música independente

Integrantes da banda Graveola. Foto: Vânia Cardoso

Integrantes da banda Graveola. Foto: Vânia Cardoso

O ano de 2016 foi de lançamento para o Graveola. Camaleão Borboleta saiu em julho e repercutiu bem. Com ele o Grav apareceu em publicações internacionais como o jornal The Guardian. “É um conjunto original, gentilmente sutil que soa melhor com cada escuta”, publicou Robin Denselow no jornal britânico.

O disco da banda também apareceu em revistas como Mojo, The Wire, Uncut e outras. A conexão imediata que eles fazem é com o som da Tropicália. Influência que nunca foi negada. Por mais internacional que o Graveola esteja, são as questões brasileiras que ainda movem composições e até as escolhas estéticas.

Em 2017 os planos da banda envolvem circulação nacional e também um projeto musical para ser executado nos centros culturais de Belo Horizonte. “Queremos potencializar algumas ações, ampliar os espaços públicos das rodas culturais da cidade”, diz o compositor e vocalista Luiz Gabriel Lopes.

O processo de internacionalização da banda continua. Segundo Luiz Gabriel, a presença do Graveola na Europa está cada vez mais forte. “Acho que não é o momento de lançar um trabalho novo. Muita coisa para multiplicar temos tido retornos muito positivos conexão com o público tanto dentro quanto fora do brasil, está bem massa o retorno.

O disco Camaleão Borboleta foi produzido por Chico Neves. Foi a primeira vez na história da banda que um profissional de fora assinou a criação de um álbum.

Confira a entrevista com Luiz Gabriel Lopes – que também lançou disco solo em 2016 batizado O fazedor de rios –  sobre o processo de amadurecimento da banda, os desafios para o ano e o crescimento da cena independente de Belo Horizonte.

Para baixar

Tanto o disco do Graveola, Camaleão Borboleta, quanto o álbum solo de LG Lopes estão disponíveis para download e para streaming em plataformas como Spotify, Deezer, Google Play e iTunes. É uma boa trilha sonora para a leitura ;).

Que descrição você faz da música independente produzida hoje em Belo Horizonte?

Acho que existe um amadurecimento interessante, desse caldo geracional que vem desde 2010 e 2011. Está conectado com as movimentações de retomada do espaço, por conta de uma geração muito ligada as artes, a música, ao teatro. Tem a ver com tudo, com a praia da Estação, com o carnaval. Vejo que isso está solidificando uma cena, pessoas que estão fazendo uma coisa muito interessante, uma representatividade fora também. E acho que tem uma geração nova vindo também. Fico feliz de ver que a coisa se renova, se transforma. Tenho viajado bastante e posso dizer sem bairrismo que a cena de BH é muito rica e com uma singularidade na produção musical. Temos muita coisa para conquistar, muitos degraus mas vejo um processo de amadurecimento.

Se você acha que há transformação, qual foi a mais significativa de 2016 e o que ela aponta?

É difícil dizer isso. Acho que tem muita coisa acontecendo. Vejo uma dificuldade de entendimento do poder público desse processo. Esse retrocesso todo que a gente viveu em relação ao golpe. É um passo atrás muito perigoso que vamos demorar um tempo para nos recuperar. Temos que nos organizar em outras formas de atuação política. Acho que o golpe é um movimento que ainda estamos sentido os baques. No Ministério da Cultura perdemos várias conceituações importantes que foram gestadas nesses anos todos. Acho que foi um trabalho sem precedentes realizado na dimensão institucional das políticas públicas de cultura do Brasil. Precisamos estar atentos para recriar nossos mecanismos de entendimento e atuação. Não pode nos amedrontar e paralisar de maneira nenhuma.

Dos planos para 2017, qual você considera o mais audacioso?

Não se deixar abalar por esse contexto tão aterrador na política. Ao contrário, se fortalecer com isso para que possa passar pelo processo de crise de maneira criativa, que fortaleça nosso trabalho nosso processo de atuação na política, na sociedade. Acho que é um lance primordial para passar o próximo ano com firmeza. Resistencia é a palavra.

Para você, qual o papel político de um artista?

Uma coisa bem ampla. Tem ver com a dimensão toda de atuação desse artista como formador de opinião, mobilizador de público, de debates. Pode se expressar politicamente no trabalho do artista mas não só. Acho que estamos em um momento que já transcendemos ideia cartilhesca da canção de protesto como a única via de atuação do artista diante da realidade política. Tem coisas muito além disso. O papel político é uma soma de todas as dimensões de atuação do artista na realidade. Acho que temos que estar atentos para isso, levantando pautas necessárias, se alinhando a movimentos que a gente acredita. É uma coisa complexa que pode se manifestar de muitas formas. Principalmente na formação de consciência. O artista é como se fosse um multiplicador de sinais. Tipo um roteador que fortalece determinadas vibrações e faz com que elas vibrem com maior força no tecido social criando sentimentos de resistência, de consciência. Acho que é por aí.

De que forma esse papel se traduz na arte que você faz?

Tenho pensado muito que temos que atuar em uma linha mais longa do tempo. Vejo que existe necessidade de fomentar o momento atual, a realidade, os problemas do agora, mas ao mesmo tempo vejo necessidade de levantar outras pautas, apontar para outros assuntos necessários que muitas vezes estão fora do primeiro escopo. A meu trabalho está se aproximando muito mais de uma visão mais transcendente. São assuntos que me interessam mais do que dar muito foco para temas que são muito do agora e que não vão durar, na minha percepção otimista. Não precisa gastar energia falando o nome dos vampiros do agora porque eles vão se ressecar, sugar a si mesmos e, daqui a pouco, vão cair e a gente recupera o protagonismo do momento histórico. Entendo a necessidade do agora mas pessoalmente tenho tentado direcionar minha música para um lugar de expansão um pouco além do primeiro campo de visão. Não estou fazendo nenhum juízo de valor, é uma coisa mais de sintonia mesmo.

Arte funciona como um ressonador do campo vibracional, multiplicador de sinais de vida e não de morte. Mais do que apontar para destruição, para o niilismo, para o medo, sentimentos densos e ruins arraigados, prefiro apontar para a luz, a superação dos sentimentos para a fé mesmo. É uma palavra importante: fé e luta.

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