Poesia em verde e rosa: o marco do segundo disco de Cartola na música brasileira

Guilherme Peixoto *

Morador do Morro da Mangueira, Angenor de Oliveira, o Cartola, era um dos mais renomados compositores do samba carioca. Apesar disso, as dificuldades financeiras forçavam o músico a vender suas letras para cantores de grande fama. A situação só foi alterada em 1974, quando Cartola, já com 66 anos de idade, lançou seu primeiro disco. A glória máxima, porém, viria dois anos depois, com o álbum Cartola II.

As letras dolentes, uma das mais marcantes características do sambista, estão muito presentes no segundo disco, aberto com a magistral “O Mundo é um Moinho”. Com os famosos versos “Ainda é cedo amor/ Mal começaste a conhecer a vida/ Já anuncias a hora de partida/ Sem saber mesmo o rumo que irá tomar”, Cartola lamenta o adeus precoce da mulher amada. Na faixa inaugural, o sambista é acompanhado por Guinga, que empunha um violão de sete cordas. Logo depois, a singela “Minha”, com apenas 13 versos e pouco mais de dois minutos, mantém o tom de lamento presente na faixa anterior. Em “Sala de Recepção”, que conta com a participação de Creuza, sua filha adotiva, Cartola canta seu amor pela Estação Primeira de Mangueira.

Clássicos

A faixa posterior, “Não Posso Viver Sem Ela”, apesar de mais animada em termos melódicos, também tem traços de lamento amoroso. A letra é fruto de uma parceria entre Cartola e Alcebíades Barcelos, o “Bide”, um dos fundadores da “Deixa Falar”, reconhecida como a primeira escola de samba do Brasil.

Deixe-me ir/ Preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Rir pra não chorar/”. Composto por Candeia, o fragmento inicia “Preciso Me Encontrar”, que aborda as angústias de alguém sem rumo ou perspectivas. O belíssimo samba é, na minha opinião, a principal obra do disco, por todo o simbolismo que a letra carrega. Ao lado de Elton Medeiros, o sambista compôs “Peito Vazio”, música que fecha o Lado A do LP.

O Lado B do vinil começa com “Aconteceu”, que assim como “Peito Vazio”, fala sobre desilusões amorosas. Com “As Rosas Não Falam”, Cartola declama sua paixão por Zica, esposa e fiel companheira nas rodas de samba. Em entrevista ao falecido jornalista Geneton Moraes Neto, Roberto Carlos contou quase ter regravado a faixa, algo que era, inclusive, desejo de Cartola. Segundo Roberto, isso só não aconteceu por ele “achar que as rosas falam”. A singela poesia, que começa com o icônico trecho “Bate outra vez/ Com esperanças o meu coração/ Pois já vai terminando o verão/ Enfim”, está presente no repertório de artistas consagrados como Beth Carvalho, Ney Matogrosso e Alcione.

“Sei Chorar” e “Ensaboa” são, respectivamente, nona e décima faixa do disco. Esta última, aliás, tem nova participação de Creuza. “Senhora Tentação”, penúltima música do álbum, é muito conhecida pelos versos “Oh! Minha romântica senhora tentação/ Não deixes que eu venha a sucumbir/ Neste vendaval de paixão”. A obra é uma composição solo de Silas de Oliveira, histórico baluarte do Império Serrano. O disco é encerrado com mais uma música assinada por Cartola. Como o nome já sugere, “Cordas de Aço” é uma homenagem do cantor ao seu maior companheiro: o violão.


Instrumentos

Além dele, outros instrumentos marcam o compasso das músicas. Ao longo dos quase quarenta minutos de álbum, é possível ouvir sons de trombones, ganzás e flautas. Há ainda a presença de uma caixa de fósforo para ritmar algumas das faixas. Cartola II, apesar de gravado com todos os requisitos de um disco profissional, é conhecido por possuir traços simples, que podem ser vistos nos improvisados duetos entre Creuza e seu pai adotivo.

Tal característica também está presente na foto escolhida para ilustrar a capa do álbum, que mostra o casal “Zicartola” na janela de sua casa, em Mangueira. Como se estivessem contemplando o morro, a histórica imagem é um chamado aos ouvintes, que são convidados a entrar na casa para apreciar uma autêntica roda de samba. Por este motivo, o álbum recebeu a alcunha de “Disco da Janela”.

 

 

Relançamentos e homenagens

Em abril deste ano, a Polysom Discos anunciou o relançamento, em vinil, dos dois primeiros discos da carreira de Cartola. No ano passado, a Universal Music já havia disponibilizado, em CD, uma coletânea com três trabalhos do cantor, falecido em 1980.

No ano de 2008, em meio às comemorações do centenário de Cartola, o mundo do samba esperava que o cantor fosse homenageado pela Estação Primeira de Mangueira. Contudo, contrariando todos os prognósticos, a escola resolveu homenagear os cem anos do frevo, em um enredo bancado pelo Governo de Pernambuco. Mesmo tendo recebido inúmeras honras, nunca ter sido tema-enredo de sua escola do coração é uma enorme lacuna na biografia de Cartola.

Curiosidade

Em 1963, Cartola abriu, ao lado de Dona Zica, cozinheira de mão cheia, um restaurante no Rio de Janeiro. Batizado de “Zicartola”, o local era conhecido por suas animadas rodas de samba, onde “batiam ponto” nomes como Paulinho da Viola, Zé Keti e Clementina de Jesus. Apesar do sucesso inicial, o casal tinha muitas dificuldades para administrar o empreendimento, que funcionou por apenas dois anos.

Ficha Técnica
Título: Cartola II
Artista: Cartola
Lançamento: 1976
Duração: 34:45
País: Brasil
Produção: Juarez Barroso
Gravadora: Discos Marcus Pereira
Trilha: Pharrell Williams e Hans Zimmer
Produção: Theodore Melfi / Peter Chermin
Estúdio: Hawaí

* Texto originalmente publicado no Caderno 2 da edição 205 do Jornal Laboratório Impressão do Uni-BH.