Elza Soares reina! Pequenas reflexões depois da maratona Divina Maravilhosa

Elza Soares e Marcelo Veronez na festa Divina Maravilhosa. Crédito: Carolina Braga

Foi uma espera que beirou o interminável até que os ponteiros do relógio se aproximaram das 4h. “Reconhece a queda, mas não desanima”, cantou, em potência inquestionável. Elza Soares entrou no palco da Divina Maravilhosa feito uma rainha. Fez jus à majestade.

Cantou apenas quatro músicas. Todas marcantes:  uma com Marcelo Veronez, outra com o coletivo Negras Autoras e duas com todomundo. Deixou bem claro o quanto merece todo o reconhecimento que tem. A mulher tem uma força que me deixou bem impressionada.

Elza Soares não anda no palco. Mesmo sentada conquista e domina a plateia de tal modo que deveria ser exemplo a tantos outros jovens artistas que pulam e gritam sem parar e ainda assim não conseguem prender a nossa atenção.

Ela sim. Canta muito e deixa seus recados bem dados, seja nas letras das canções, ou na breve conversa entre uma música e outra. O combate da mulher aos abusos constantes e o machismo – desde o mais invisível ao escancarado – da sociedade foram causas que defendeu no palco da Divina Maravilhosa. Consonância total com a proposta da festa.

MC Carol se mostrou abusada cantando funk e clássicos em inglês e francês. Crédito: Carolina Braga

MC Carol foi outra que representou muito bem a causa defendida pelo evento. Ali empoderamento feminino transborda. Oww o que é a força aquela mulher? É para pensar que ser mulher vai além – e muito – de todo e qualquer estereótipo. Como ela mesma diz: é abusada! MC Carol cantou,  além do funk, clássicos em inglês e francês.

Era só dar uma breve caminhada pela plateia para perceber o quanto a diversidade de fato estava presente ali. O respeito também, na maioria das vezes. Não deixa de ser um belo avanço. Que sempre precisa ser reforçado, como fez uma das integrantes do coletivo As Bacurinhas: do palco mostrou peito, bunda, afins e lembrou que cada um faz do corpo o que quiser. Com um detalhe: é uma escolha individual e unilateral, ou seja, o desejo do outro não basta.

Confira as pequenas reflexões pessoais sobre a Divina Maravilhosa

  • Ok, é uma festa e os horários não precisam ser rigorosamente seguidos mas seria bom, né! 😉
  • A Festa Divina Maravilhosa deu um grande passo em sua quarta edição. Ao se transferir para a Serraria Souza Pinto, escolhe um lugar bem mais amplo do que os anteriores (a última foi no BH Hall). Com isso, muita gente ficou com a impressão de que estava vazio. De jeito nenhum. Tinha muita gente ali mas talvez o espaço realmente pudesse ser melhor aproveitado.
  • A disputa nervosa promovida pelo projeto Lá da Favelinha surpreendeu. Tanto que deveria ter voltado a cada intervalo. Não que os integrantes da Toda Deseo tenham decepcionado nas performances entre os shows, mas ficou meio repetitivo. Palmas para a disputa nervosa que abriu a Divina Maravilhosa em alto estilo. 
  • Palmas também para a estrutura. Como o espaço era bem grande, dava para circular tranquilamente. Havia muitos caixas disponíveis assim como nenhuma fila para pegar bebida ou mesmo para ir ao banheiro (sempre rola uma espera mas ela foi bem breve). A única sugestão fica em relação à diversidade (palavrinha importante para a festa) entre as opções de bebidas. Quem não toma cerveja ou catuaba teve que ficar na água.

Outras atrações

  • Que belo contraste Carô Renó e Sérgio Anders causaram. Entre o funk “desbocado” e empoderado de MC Carol e a pegada política de Linn da Quebrada a dupla mostrou a possibilidade de convivência dessas sonoridades com o erudito. É diversidade. Pena que foi pouco. Por que só uma música, produção?
  • Enquanto Linn da Quebrada estava no palco fui dar um passeio. No meio do caminho, alguns amigos comentaram comigo que os vídeos dela no YouTube são mais legais do que a versão ao vivo. Como era uma novidade para mim, registrei a informação para procurar os clipes. Alguém mais concorda? Fato é que achei que o show dela deu uma quebrada no clima da festa.
  • Marcelo Veronez está com disco novinho para ser lançado. As canções inéditas mereciam uma atenção maior do que a de uma plateia com mais de seis horas e meia de shows “nos corpos” seria capaz de dedicar. Mais canções do repertório antigo fariam bem à dinâmica do show dada a hora avançada. Ao que pareceu, as composições escolhidas para o disco merecem outro tipo de relação com a plateia.

Joguei a toalha depois do encontro de Elza Soares e Marcelo Veronez. Sorry, Alô Abacaxi, a última atração da noite e que tinha a missão de encerrar a Divina Maravilhosa com alegria.