Os segredos da fotografia do filme ‘Divinas Divas’, de Leandra Leal

Logo nos primeiros minutos de Divinas Divas, documentário dirigido por Leandra Leal exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes, já é possível perceber que a fotografia é mais um aspecto a se observar ali. A obra é de David Pacheco, um dos parceiros da cineasta estreante na jornada de sete anos até que o filme ficou pronto.

A estreia de Divinas Divas no circuito comercial está prevista para junho.

David e Leandra se conheceram no Festival de Gramado. Ela apresentava no sul Nome próprio, com o qual ganhou o Kikito de melhor atriz e David fazia parte da equipe de Júlio Bressane, homenageado na edição de 2008. Conversa vai, conversa vem e ela conta sobre o desejo de fazer o documentário sobre a história da primeira geração de atrizes travestis do Rio de Janeiro.

O diretor de fotografia David Pacheco. Foto: Leo Lara/ Universo Producao

O diretor de fotografia David Pacheco. Foto: Leo Lara/ Universo Producao

“Eu quero fazer este projeto com você”. Foi o que ele lembra de ter falado. Mas o candidato ao posto de diretor de fotografia já estava escolhido. O tempo passou. David e Leandra se encontraram novamente em outro projeto do Teatro Rival, que é da família dela e podemos dizer que um dos protagonistas de Divinas Divas. Aí rolou a parceria.

Leandra Leal acreditava que se o câmera fosse um homem a empatia com Rogéria, Valéria, Jane Di Castro, Camille K, Fujica de Holliday, Eloína, Marquesa e Brigitte de Búzios poderia se tornar mais interessante. Com ela todas tinham intimidade de sobra, já que foi criada nos bastidores do teatro do avô onde o grupo se apresentava na década de 1960.

“Tem um ensinamento que aprendi: tem que fazer seu objeto gostar da câmera para a câmera poder gostar dele”. David seguiu à risca para registrar as mais de 400 horas de imagens que deram origem a Divinas Divas.

O plano era despir as entrevistadas de suas próprias idealizações. Quebrar a barreira da vaidade. Foram cerca de seis encontros com cada uma das oito personagens para gravar os depoimentos. Fora isso, os registros dos ensaios do espetáculo e o show em si.

A equipe de filmagem praticamente se resumia a dupla e o técnico de som. Para gravar os depoimentos nas casas das artistas usavam, em geral, duas câmeras Canon 5D, também usada para fotografia. É um tipo de equipamento adequado para este tipo de produção porque os os personagens se esquecem que se tornaram objeto de um filme.

Cena do documentário 'Divinas Divas', com direção de fotografia de David Pacheco. Foto: David Pacheco

Cena do documentário ‘Divinas Divas’, com direção de fotografia de David Pacheco. Foto: David Pacheco

Leandra cuidava do plano geral enquanto David se fazia invisível para captar os detalhes. “O grande presente foi elas terem me deixado chegar tão perto.” A iluminação também fugia de tudo aquilo que poderíamos imaginar como um set de cinema. David criou luzes a partir de lanternas japonesas e a própria iluminação natural do lugar em que estavam.

O primeiro plano de Divinas Divas começa bem fechado nas mãos e no rosto de Marquesa, minutos antes dela entrar no palco. É uma câmera muito íntima. “Isso não foi de uma hora para outra. Foi com o processo de cada uma delas. Foram quatro anos de filmagem”, lembra.

Muitos dos efeitos que foram para a tela foram descobertos na hora da filmagem. O detalhe do brilho da purpurina, da cortina de missanga, os pontos de fugas que as próprias personagens encontraram para elas mesmas não escaparam às lentes de David.

Leandra queria que o filme tivesse também um clima de magia, um certo retorno onírico a uma época marcante na vida delas. “Tentei fazer a coisa da película, de ter mais profundidade, de ter um grãozinho, uma tridimensionalidade que o digital ainda não proporciona. Ali tem uma mágica da pós-produção”, conta.

Carreira

David Pacheco tem 40 anos e é formado em cinema pela Universidade Federal Fluminense. Trabalhou como assistente do mestre Walter Carvalho em filmes como A máquina e outros. É em Tiradentes que ele marca o início da carreira profissional, já que foi entre as ladeiras daqui que ele começou como assistente na primeira versão da série Turma do Pererê.

Em 2016 coube a David a tarefa de cuidar das lentes no documentário Manter a linha da cordilheira sem o desmaio da planície, dirigido por Carvalho. Também este ano fotografou o curta Abigail (em cartaz na Mostra de Tiradentes), exibido na Quinzena dos Realizadores de Cannes. Este foi em parceria com Pedro Urano.

Entrou na universidade em 1995 e, portanto, ainda pegou todo o processo de revelação dos negativos. Mesmo com toda tecnologia de hoje, diz que sente falta do tempo da lida com os laboratoristas. Sente saudade até do cheiro da película.

Além do cinema, também é atraído pela arte experimental e o teatro. Ele que pensou em ser ator, tem parceria sólida com a diretora Christiane Jatahy. Participou de todo o processo de criação do espetáculo Júlia, do qual foi o primeiro câmera que dividiu o espaço cênico com os atores Júlia Bernat e Rodrigo dos Santos.

David Pacheco é admirador do cinema mineiro. Entusiasta do trabalho das diretoras Marília Rocha e Clarissa Campolina. “A Marília trabalha bem discretamente e chega em um lugar que eu acho que vai conquistar muitos espaços. Quero muito trabalhar com a galera daqui”, elogia.

 

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Foto: Leo Lara/Universo Produção

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