Em ‘Sublime Travessia’ Dudude coloca pra fora inquietações sobre Brasil presente

Bailarina Dudude em Sublime Travessia. Crédito: Adriana Moura

Bailarina Dudude em ‘Sublime Travessia’. Crédito: Adriana Moura

Ao longo dos últimos cinco anos a bailarina e coreógrafa Dudude se dedicou a pequenas grandes inquietações traduzidas em espetáculos de “entressafra”. Foram montagens pequenas que circularam por alguns festivais e davam vazão às sempre presentes inquietudes da artista.

Sublime Travessia, que cumpre temporada no CCBB-BH até 12 de dezembro tem outro porte. Ou melhor, tem caráter de pesquisa, urgência e um desenho mais focado no molde espetáculo.

Desde A projetista Dudude não fazia algo assim. A inquietação do momento é a postura da artista na observação da Terra em que nasceu. Os hinos brasileiros, entre eles o Hino Nacional, foram alguns dos gatilhos para as reflexões que Dudude traduz com o corpo.

Na entrevista a seguir – sem edição para manter intacto o jeito Dudude de ser – a bailarina comenta as raízes da montagem, o que entende como o papel da arte e que relação isso tem com pertencimento nacional.

Quando se fala em travessia pelo Brasil, além do sentido literal, quais outras travessias você propõe para a plateia?

Uma travessia de se reconhecer vivo, para mim a travessia é nossa própria existência estamos sempre no meio, atravessando, seguindo e no percurso tomamos para nós algo precioso que nos traz vivencia experiencia durante a travessia. Brasil, como amo este lugar o qual nasci, cresci e vivo e dentro do caos que nosso tempo se encontra, não só neste lugar mas pelo mundo afora foi de uma urgência amorosa que resolvi mergulhar nesta Travessia. E para construir tal trabalho usei de minha sensibilidade adquirida como artista deste lugar originaria daqui mesmo aguçando minha intuição, ativando minhas antenas sinestésicas e escutando as pistas  para que o trabalho ganhasse o corpo  que urgia em ser.

frase-dududeO que você quer dizer por um “corpo urbano de arte, estilizado”?

Minha escolha foi a de escutar e ter como suporte este “corpo urbano e estilizado ” que o estudo, o treino da arte nos faz dilatar, com o cuidado para não cair no folclórico, no popular tão forte  aqui  neste lugar Brasil, a partir deste corpo distanciado destas manifestações populares mas sensível  na captura desses dizeres  parti para a criação. Um trabalho solo onde este corpo  é repleto e atravessado de muita gente, muita mata, muitos dizeres e quereres, a travessia  tem o suporte  subjetivo de existir na arte, nos entre dilatados que o fazer arte nos possibilita. Durante o processo escutei os Hinos Brasileiros  e há uma discrepância de paisagens e imagens para com o Brasil atual, acho que esquecemos assim de toda esta riqueza esquecida em nós e por nós.

Qual o papel você atribui a sua arte hoje?

Cada vez mais me ocupo de publicar trabalhos onde seus assuntos tem uma urgência para minha pessoa, me preocupo com o caminho que estamos a seguir nesse planeta, me preocupo com os rios as matas, a qualidade de nossas relações, a degradação, a desesperança na projeção de um futuro mais ético, mais digno mais cuidadoso, estes lugares tem sido repetidamente frisados em meus últimos trabalhos, meu desejo de compartilhar com o outro sobre coisas, vivemos juntos neste planeta, mesmo separados estamos juntos, ampliar esta consciência é um desejo  muito forte em mim.

Mas não me preocupo com qual papel desempenho, vivo em verdades temporárias , piso em um chão impermanente e sigo meu caminho aqui neste planeta terra tão lindo por natureza.

Dudude, qual a saída para que o homem retome o “cultivo do pertencimento, a valorização das origens a prática da ética e a redescoberta do lugar que habitamos?

Qual a Saída? Existe saída? Eu me pergunto isto todos os dias e faço o que posso. Minha lei  tem sido cuidado preservação conservação. Lembro sempre aos meus alunos que a Multidão é sempre de um de um de um, e esta mudança de Modos operantes do viver vem de cada um, o movimento de si para si, do pequeno. Com certeza se eu altero meus moldes isso ressoa em quem está próximo e assim esta corrente pode se imbricar em ações gentis para com tudo que existe aqui nesse planeta. Cuidar da agua, seu uso, cuidar do lixo, do consumo, da comida, do discurso não custa nada, por incrível que pareça é simples. Hoje mesmo estava em um congestionamento e o carro da frente ou melhor a pessoa do carro da frente assim sem mais nem menos jogou uma lata fora do carro. Imediatamente sai do meu carrinho e peguei a lata, não me custou absolutamente nada, não xinguei, apenas peguei a lata descartada como um ninguém e levei-a comigo. Outro dia estava em Manaus ministrando uma Oficina para artistas e estudantes de dança, fomos então fazer um passeio, atravessar o RIO NEGRO, majestoso, belo e que é via de sobrevivência de muita gente. Fiquei emocionada e simplesmente encantada com o poder do RIO. Quando retornamos daquele passeio disse a eles, vamos fazer alguma coisa, algo que possamos agradecer a este RIO por nos dar tanta beleza. Então no outro dia voltamos para o Porto de Manaus, cada um com um saco de 200lt e ficamos ali catando os lixos abandonados por vários alguéns. Pessoas passavam e indagavam o porque desta ação e todos nós falávamos estamos agradecendo ao rio, só isso, não é lição, não é exemplo, é uma atitude de GRATIDÃO, mesmo que seja quase nada, meu pequeno coração brasileiro ficou um pouco mais leve e estas ações para mim são a SUBLIME TRAVESSIA.

Imagino que aqui tivemos em outros tempos Rios tão lindos quanto e hoje estão cobertos, sujos, cheios de lama morrendo, o que fazer? Como artista uso da arte para escancarar aquilo que todos nós vemos e não damos o devido tempo de pertencer a tudo. Brasil em mim, pertencido em mim.

SERVIÇO

SUBLIME TRAVESSIA – DUDUDE
Dias 2,3,4 e 5; e 9, 10, 11  e 12 de dezembro, sempre às 19h. Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte – CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários – BH). Ingressos: R$ 10 (meia) e R$ 20 (inteira)

Bailarina Dudude em Sublime Travessia. Crédito: Adriana Moura

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