30 out 2017

Nightvodka é a radicalização performática na trajetória do Grupo Armatrux

Nightvodka com Grupo Armatrux. Crédito: Bruno Magalhães- Nitro/Divulgação

Como é interessante quando os laços entre o teatro e a performance ficam mais estreitos, né? A impressão que eu tenho, depois de ver Nightvodka do Grupo Armatrux, é que esse encontro tem sido cada vez mais frequente nos palcos. Na forma como o mundo se organiza hoje, com tanta informação, tanto estímulo, é preciso mudar a chave. Mas como?

Não legendar, não repetir. Buscar novos caminhos para a reflexão do contemporâneo. Como o teatro é a uma das poucas artes que ainda requerem a comunhão física de artista e plateia, como fazer desse encontro algo que seja significativo e não repetitivo?

Explorar a performance parece ser uma resposta. Mesmo grupos que podemos chamar de tradicionais recentemente escolheram explorar esta linguagem.

O que é Nós do Grupo Galpão se não aproximação com a performance? No recente Antes do Fim de Rita Clemente e Macunaíma Gourmet, do grupo Pigmalião Escultura que Mexe, ambos lançados em 2017, lá está o flerte com ela de diferentes maneiras. Em Nightvodka o Grupo Armatrux e o diretor Eid Ribeiro (mesmo diretor de Macunaíma Gourmet) também nos oferecem esse tipo de experiência. Com um adendo: muita poesia envolvida.

Como bem define o autor Renato Cohen na introdução do livro Performance como Linguagem podemos entender essa arte como uma manifestação expressiva disruptora. Ou seja, é algo mais para provocar do que para confortar. Por isso, não vá à peça pensando que ficará 1h45 de boas (soube que o ritmo já mudou e a peça agora tem 80 minutos). É um espetáculo que estimula uma postura bastante diferente do espectador acostumado à passividade intelectual.  Lembrando que aquilo que é disruptivo é o que “interrompe o curso normal de um processo”.

Nightvodka com Grupo Armatrux. Crédito: Bruno Magalhães- Nitro/Divulgação

ORIGEM DE NIGHTVODKA

Nightvodka é inspirado no livro Vozes de Tchernóbil, da jornalista ucraniana Svetlana Aleksiévitch. A primeira ruptura se dá por aí. Se no livro a narrativa é centrada, obviamente, na palavra, a peça do Armatrux segue caminho contrário. É o silêncio que fala na primeira parte da peça. É como se cada cena fosse um estímulo ao espectador a escrever mentalmente a própria história a partir do que é apresentado no palco.

É o claro teatro da ausência, para usar um termo bastante aplicado à obra do encenador americano Bob Wilson, referência internacional na comunhão dentre teatro e performance. Pareceu haver muito do pensamento teatral vanguardista dele em Nightvodka, como bem identificou minha amiga Cristiana Brandão.

É uma mudez difícil. Fez mesmo lembrar a interminável montagem de Dias felizes, texto de Samuel Beckett dirigido por Bob Wilson que esteve em BH no FIT-BH de 2010.

Embora bastante demorada, a primeira parte de Nightvodka, revela a leitura pessoal que os artistas tiveram do livro em que se inspiraram. Foram capazes de extrair aquilo que é universal da narrativa da ganhadora do prêmio Nobel de Literatura. Vozes de Tchernóbil, para o Armatrux e Eid, diz sobre vida e afeto. Uma catástrofe que vira poesia.

Não tem uma historinha. São quatro pessoas presas em um fim de mundo e que precisam fazer daquilo algo que valha a pena. O primeiro momento, a da mudez incômoda, é como se fosse um luto (vide a presença de um caixão). A própria vida (que se esvai entre os dedos como um cubo de gelo que derrete) dos que restaram estimula o enfrentamento e, consequentemente, a explosão. Aí Nightvodka ganha outra cara, outro ritmo. Quase vira outra peça.

Nightvodka com Grupo Armatrux. Crédito: Bruno Magalhães- Nitro/Divulgação

RUPTURAS

É na segunda parte da montagem que o Armatrux rompe com tudo o que já fez até então. Faz seu teatro de vanguarda. Conhecido pela trajetória com a linguagem de bonecos, experimentar outras formas teatrais sempre fez parte da carreira do grupo hoje sediado em Nova Lima. Basta lembrar que o repertório da companhia já teve Esperando Godot, clássico do teatro do absurdo de Samuel Beckett.

Nightvodka vai além. Cristiano Araújo, Eduardo Machado, Raquel Pedras e Tina Dias tem corpos ativos o tempo inteiro. Há vigor físico e vocal. Cada ator toca um instrumento diferente. A sonoridade também não é linear. Tem piano, baixo, guitarra e bateria. Assim como os personagens, os sons enfrentam as distorções da realidade.

Se o texto (protagonista da literatura) raramente sai da boca, na segunda parte ele aparece de maneira mais explícita de outras formas. A mais marcante delas é a projeção. Que coisa bonita! Os vídeos idealizados pelos atores e o diretor potencializam o cenário de Marco Paulo Rolla, quem também assina o figurino.

Das referências sobre performance encontradas nas obras de Cohen e Eleonora Falcão (Texto Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea) a informação de que se trata de uma expressão artística capaz de relacionar corpo, estética e política em ações fica mais clara ao ver o novo trabalho do Armatrux. Os tempos andam difíceis para as artes, como Raquel Pedras diz em cena.

Fazer performance, como ressalta Falcão, é como escovar à contra-pêlo. Assim é Nightvodka. Afinal, é melhor morrer de vodka do que de tédio. Melhor ousar do que fazer mais do mesmo. Um viva para as novas buscas teatrais!

[O QUE] NIGHTVODKA, Grupo Armatrux [QUANDO] 26 de outubro a 20 de novembro, 20h [ONDE] CCBB BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários, BH, (31) 3431-9503) [QUANTO] R$ 20 (inteira) R$ 10 (meia) [COMPRE AQUI]

Nightvodka com Grupo Armatrux. Crédito: Bruno Magalhães- Nitro/Divulgação

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