Noite Aberta se reconfigura e terá presença ampliada no calendário cultural de Inhotim

Inhotim Noite Aberta 2017. Crédito: Thiago Fonseca

Por Thiago Fonseca*

Se ir ao museu em pleno sábado à noite poderia parecer um programa pacato, a segunda edição do Inhotim Noite aberta, realizada na noite do dia 30 de setembro, mostrou um caminho inverso: deu ao público a possibilidade de curtir shows ao ar livre e de visitar algumas galerias no período noturno em um dos maiores centros de arte contemporânea da América Latina. Nem mesmo a chuva atrapalhou a diversão e os shows de Thaís Gulin, com participação especial de Flávio Renegado, e do Minimalista, que convidou Lucas Santtana.

O projeto lançado no ano passado, como parte das comemorações dos 10 anos do Inhotim, tem como ideia abrir as portas do maior acervo artístico a céu aberto do mundo, para uma programação noturna. O formato reúne arte contemporânea, música e gastronomia. Em menos de um ano de existência o Inhotim Noite Aberta se reconfigurou para atrair mais pessoas.

“Esse projeto nasceu quando detectamos uma enorme vontade do público em conhecer o Inhotim à noite e da necessidade despertar no visitante novos olhares e sensações no instituto, além de criar o diálogo com outras expressões culturais como a música e a gastronomia. Já tivemos o evento no ano passado, que foi muito bem sucedido, e resolvemos ampliar este ano incorporando mais experiências artísticas“, explica Antonio Grassi, diretor executivo do Inhotim.

Inhotim Noite Aberta 2017. Crédito: Thiago Fonseca

AMPLIAÇÃO

Se em 2016 foram apenas duas galerias abertas, este ano foram quatro diferentes. O número de artistas musicais quadruplicou, enquanto na primeira edição só a mineira Fernanda Takai se apresentou, nesta edição tivemos quatro músicos no palco. A parte gastronômica passou de Food Trucks, para uma praça de alimentação com produtores da Amadoria Gastrô.

Toda a estrutura foi montada na área central do Parque. O palco ficou bem próximo à árvore Tamboril, que foi iluminada. As Galerias Praça, Cildo Meireles, Rivane Neuenschwander e Fonte, permaneceram abertas até 21h30 com mediação do Educativo Inhotim. A praça de alimentação ocupou o Largo das Orquídeas.

Antonio Grassi ressalta que a ideia é aumentar o número e a diversidade de atrações no próximo ano. “O evento já está consolidado no calendário do Inhotim. Vamos melhorar. A intenção é de ter mais dois ou três, no ano que vem“, afirma. Grassi adianta que ocupações artísticas temporárias vão acontecer em diferentes  pontos do parque em dias comuns de visitas. “Vamos dar uma nova experiencia de enxergar o Inhotim de uma outra forma”.

Inhotim Noite Aberta 2017. Crédito: Thiago Fonseca

MÚSICA

O palco montado próximo à árvore Tamboril foi desenhado de maneira que a plateia ficasse bem perto do artista de maneira intimista. O público logo percebeu e assistiu os shows sentado no gramado. Thales Minimalista foi o primeiro a se apresentar, trouxe ao avento o sua MPB com novas cores, cheia de pitadas psicodélicas, sons e ruídos urbanos, sob uma base rítmica muito rica e brasileira.

O setlist foi marcado por canções do segundo disco solo do cantor, o “Banzo”. “O Peso”, “Branquinha”, “Boca Vermelha”, “Maça” e “Lua pro Sol” fizeram parte do repertório. Uma falha técnica parou o show logo no início, mas nada que estragasse o espetáculo. Thales tirou a situação de letra e aproveitou para apresentar os músicos.

O cantor, compositor e instrumentista, Lucas Santtana, foi o convidado do Minimalista. Ao subir no palco Lucas agradeceu o convite e fez uma crítica aos ataques aos museus.

“O que esta acontecendo é que uma galera esta usando esse discurso de censura às artes como capital político para angariar votos. Temos que nos unir e não permitir que isso aconteça”, Lucas Santtana.

“Cira, regina e nana” e “Amor em Jacumã” foram algumas das canções de Lucas Santtana executadas pelos dois músicos na noite. A chuva fina também marcou presença. Com bom humor, Lucas logo puxou um pedacinho de “Chove Chuva”, de Jorge Ben Jor.

VERSATILIDADE

Em seguida foi a vez da Curitibana, Thaís Gulin, subir ao palco. A artista que transita entre o MPB e o samba emocionou o público com letras feministas e recheadas de críticas sociais. A cantora abriu o show com “Água”, seguiu com “Cinema Americano”. “Se eu soubesse”, “Garoto de aluguel”, “Ali sim Alice” também estiveram presentes. As demais canções do setlist foram dos álbuns “Thaís Gulin” e “ôÔÔôôÔôÔ”.

O convidado de Thais foi o rapper Flávio Renegado. Eles apresentaram juntos a canção “Cama e mesa”, de Roberto e Erasmo Carlos. A participação do mineiro foi breve, mas mostrou a capacidade de Renegado de transitar em tantos lugares. “Poder estar cantando ao lado da Thais foi muito especial. Sou fã dela. Estar aqui hoje é um presente,  viver a cidade e ocupar os espaço”, afirma Flavio Renegado.

Já terminando a apresentação Thais cantou um trecho do poema “Amor Bastante” de Paulo Leminsk. “Achei lindo poder cantar em um lugar tão mágico. Essa ideia de diálogo das artes foi muito interessante. Amei estar aqui, ainda mais junto com o Renegado”.

Inhotim Noite Aberta 2017. Crédito: Thiago Fonseca

ARTES

“Praça”, “Cildo Meireles”, “Rivane Neuenschwander” e “Fonte” foram as galerias escolhidas para ficarem abertas até tarde. “Escolhemos as quatros por questão de logística e pelo diálogo com as múltiplas artes”, explica Antonio Grassi. Composta de cinco obras a galeria “Praça” contém trabalhos de Luiz Zerbini, Marcius Galan, Janet Cardiff e John Ahearn.

A exposição permanente “Cildo Meireles” conta com três salas: Através (1983 – 1989), que mostra a vida e as dificuldades ao convidar o visitante a caminhar sobre vidros quebrados; Desvio para o Vermelho (1967-1984), uma casa só com obejtos vermelhos; e Glove Trotter (1991), com bolas de vários tamanhos, cores e materiais, cobertas por uma malha de aço, que nos lembra a superfície da Lua.

E foi pela obra de Cildo que a aposentada Denise Bastos ficou apaixonada. “Foi fantástico, uma experiência única poder conhecer essa exposição. Andar nos vidros me deu uma sensação boa e alegre”, conta. Junto com a filha e a irmã veio de Sete Lagoas para conhecer o instituto. “Esta foi a primeira vez que vim aqui. Fiquei sabendo que hoje ficaria aberto até mais tarde e aproveitei. Achei legal também a ideia de ter shows”.

COLEÇÃO PERMANENTE

A obra permanete de Rivane Neuenschwander está instalada numa pequena casa de fazenda de 1874, a mais antiga construção remanescente da propriedade rural que deu origem ao Inhotim. O ambiente, sem móveis, é coberto por um teto cheio de pequenas bolas de isopor que se movem aleatoriamente sobre um forro transparente, ativadas por circuladores de ar. Esse estímulo cria formas abstratas monocromáticas que aludem ao mesmo tempo a mapas e ao movimento das nuvens no céu.

A galeria “Fonte” reúne trabalho de diversos artistas que compõem o acervo “Do Objeto Para o Mundo”. A exposição representa uma espécie de estudo genealógico do neoconcretismo de diversas gerações e partes do mundo e uma compreensão sobre a linha expositiva do próprio museu-sede, em Brumadinho. As obras datam dos anos de 1950 até os dias de hoje propondo uma reflexão sobre como se formou o campo da arte contemporânea a partir da coleção e do programa da instituição, inaugurada ao público em 2006.

Inhotim Noite Aberta 2017. Crédito: Thiago Fonseca

AMADORIA GASTRÔ

Com cardápio variado, cinco produtores da Amadoria, puderam expor o trabalho na feira gastronômica, instalada no Largo das Orquídeas. “Estamos aqui hoje mostrando o que nossos produtores tem de melhor na culinária. Pra gente é muito gratificante estar em um evento deste porte, pois incentiva os pequenos produtores a criar suas próprias estruturas. Isso também valoriza a arte, que é interligada”, explica Carol Gomes Rocha, idealizadora do projeto.

*Sob a supervisão de Carolina Braga