Plateia lotada na Praça do Papa celebra 35 anos do Grupo Galpão

Grupo Galpão apresenta ‘De tempo somos’ na Praça do Papa. Crédito: Carolina Braga

Não era uma canção do repertório, mas o ‘Parabéns a você’ entoado pela plateia ao final da apresentação De tempo somos ampliou os significados da festa para o Grupo Galpão. Afinal, estamos na comemoração dos 35 anos não há combinação melhor para quem acompanha a trajetória da companhia – e vive em Belo Horizonte – do que estar na Praça do Papa para esta celebração. Sim, parabéns à vocês!

As noites com o Galpão na Praça do Papa são sempre momentos de encontros especiais. Com os amigos que avistamos e abraçamos pela plateia, claro, mas principalmente com as lembranças deixadas na vida de cada um ao longo da trajetória do grupo. Como já disse Maria Bethânia, “música é perfume”.

De tempo somos, atração da noite de sábado (17/06), é um sarau musical. São 25 canções que fazem parte da trilha sonora de espetáculos desde A comédia da esposa muda (1986). Quer dizer, um repertório que passa por Romeu e Julieta (1992), A Rua da Amargura (1994), Partido (1999), Pequenos Milagres (2007), Um homem é um homem (2005), Um Moliére Imaginário (1997), Eclipse (2011), Tio Vânia (aos que vierem depois de nós) (2011).

Vi a peça na estreia, no Galpão Cine Horto. Emocionou e tal mas nem de longe teve a força da apresentação na Praça do Papa nas comemorações dos 35 anos. O espetáculo ganhou em dinâmica, em cenário. A praça é dispositivo para o Galpão. Como é bonito ouvir o povo cantando junto.

LEMBRANÇAS

Assim como o Zé, de Morro Vermelho, ou da Divina, de Uberlândia, que tiveram suas histórias com o Galpão compartilhadas em cena, bem provável que cada uma daquelas milhares de pessoas que se acomodaram na montanha da Praça do Papa também tenham as suas. Galpão é tipo patrimônio cultural – material e imaterial ao mesmo tempo.

Os primeiros acordes de Canção dos Atores, por exemplo, me transportam para o Estacionamento do BH Shopping. De gravador em punho, estava lá naquela noite de 1997 para conferir o que o meu amigo Paulo Azevedo me assegurou ser teatro de rua de verdade. Não foi exatamente uma praça, mas um estacionamento se fez “arena, no vento de um sonho contente”. Sonho constante.

As palavras de Charles Baudelaire, na voz de Eduardo Moreira, abrem De tempo somos com um convite. É um convite: “É hora de vos embriagar!”. De vinho, de poesia e de virtude, como pregou o escritor e o Galpão reafirma. Estão no elenco da peça, Antônio Edson, Beto Franco, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Júlio Maciel, Luiz Rocha, Lydia Del Picchia, Paulo André e Simone Ordones.

A escolha do repertório é condizente com a temática escolhida: o passar do tempo sem perder o humor. Os versos de Lua, de A Rua da Amargura, deixa claro: “Deus vos salve lua nova/ Minha Lua bonitinha/ Faça com que eu consiga/ Tornar-me outra vez novinha”.

Do belo vocal de A viagem, letra de Cacá Brandão a partir de um poema de Baudelaire, ecoa a frase: “O começo da viagem seja o avesso”. Sim, é sempre tempo de começar, recomeçar, continuar. Também da trilha sonora de Partido, Vem te encontrar, continua a mensagem: “E o tempo é um rio que não podes deter”.

ORGANIZAÇÃO

Todos os espetáculos do Galpão na Praça do Papa levam multidões. Mas o que sempre me chama atenção é como o público se dispersa rápido e sem confusão. Foi assim mais uma vez. Que a praça volte a se fazer arena e que o Galpão siga mambembando sem parar!