“Gabriel e a montanha”: um filme sobre contradições, contrastes, liberdade e natureza

Cena de ‘Gabriel e a Montanha’, com direção de Fellipe Barbosa. Crédito: Pagu Pictures/Divulgação

Três anos separam Gabriel e a Montanha (2017) de Casa Grande (2014), os dois longas-metragens de ficção dirigidos por Fellipe Barbosa. Entre eles, alguns pontos em comuns, embora tenham temática completamente diferentes.

São dois bons filmes, inspirados em pessoas do círculo afetivo do diretor. Se no primeiro estavam algumas lembranças da vida em família, o segundo é sobre um amigo de infância. Ambos revelam o gosto que Barbosa tem por títulos simples e longos planos-sequências na abertura, entre outras características técnicas.

Apesar de carregar muitos subtextos, Casa Grande dizia, basicamente, sobre a vida (com todas as complexidades de uma família rica) em uma casa bem grande. E como o longa começava? Justamente dando a dimensão para o espectador sobre o tamanho da casa e a crise que ali se instalava. Bemmm grande.

Desta vez, o cineasta reconstitui um trecho da viagem que o economista Gabriel Buchmann fez pela África. Na primeira imagem, também em plano sequência, dois homens encontram o corpo do brasileiro enquanto catavam capim em uma impressionante paisagem natural no interior do Malauí, aos pés do Monte Mulanje.

RECONSTRUÇÃO

Assim que encontramos Gabriel (o ótimo João Pedro Zappa) e a montanha (repare a simplicidade do título), Fellipe nos mostra em flashback um pouco do que supõe ter sido a experiência do amigo pelo continente africano. Para adiantar o que se busca no Google, Gabriel morreu por hipotermia e foi encontrado depois de 17 dias desaparecido.

Em um interessante exercício de roteiro, que mistura ficção e documentário, Barbosa partiu de anotações, cartas e depoimentos dos parentes de Gabriel, procurou os nativos que conviveram com ele pelo caminho, reuniu as fotos que fez e assim criou um filme sobre diferenças culturais, desigualdade social e sobretudo sobre liberdade, escolhas e consequências.

Em 2009 o economista deixou o Rio de Janeiro para peregrinar por países pobres do mundo inteiro. O objetivo dele era coletar dados para um doutorado já com data para começar nos Estados Unidos. Gabriel não queria ser turista. Negava passeios em elefantes, nem ligava para os tradicionais safaris. O que valia para ele era calçar a sandália feita com restos de pneus, ser hospedado pelos nativos, conversar de peito aberto com quem vivia ali.

Caroline Abbras e João Pedro Zappa demonstram química e empatia em cena. Crédito: Pagu Pictures/Divulgação

O TURISTA E O HOMEM

Na primeira parte do filme é impossível não sentir empatia por esse brasileiro tão gente boa e simples. Um rapaz diferente mesmo. Uma construção que poderia prenunciar um tom mais emotivo. Afinal, o diretor – amigo de Gabriel – conta logo no primeiro plano que o protagonista morre. Mas não. Ainda bem que Fellipe Barbosa não cai na armadilha do sentimentalismo. Ele, inclusive, evita mitificar o amigo/personagem.

A visita de Cristina (Caroline Abbras), a namorada, apresenta ao filme outras características que Gabriel não precisava revelar no contato com os nativos. Sabe aquela frase maravilhosa de Millor Fernandes, “como são adoráveis as pessoas que não conhecemos muito bem”? Pois é. O rapaz branco, de classe média alta, quando convivia com pessoas de sua intimidade, era egoísta, machista, sempre se colocava em primeiro plano, sem escuta para o outro, com certa arrogância. Um homem comum, não um herói.

Além desse retrato fiel do humano, a realização de Gabriel e a montanha também chama atenção. Apenas João Pedro Zappa e Caroline Abbras são atores profissionais. Todos os outros personagens que aparecem no filme são as pessoas que receberam e conviveram com o protagonista durante o período que ele esteve na África. Veja o filme e depois me conta se dá ou não para perceber que eles não são atores profissionais?

Vale destacar, ainda, a direção de fotografia assinada por Pedro Sotero, que também fez Casa Grande e os longas de Kleber Mendonça Filho, Aquarius (2016) e O som ao redor (2012). Ele não foge do clichê da imagem africana. Isso parece ser intencional. Vamos lembrar que o que existe ali é uma tentativa de reconstituição do olhar do protagonista. Por mais que Gabriel negasse, o olhar dele sempre seria de um estrangeiro. As fotos que ele tirou e são brilhantemente incluídas na narrativa não escondem isso.

Gabriel e a montanha se aproxima de um rapaz idealista para revelar contradições humanas, contrastes culturais que constituem os indivíduos e o mundo. Estão aqui, ali, em qualquer lugar. Em nós.

Em tempo: O filme de Fellipe Barbosa foi exibido na Semana da Crítica do Festival de Cannes de 2017 e saiu de lá com dois prêmios. Em novembro, no mesmo mês em que estreou no circuito comercial, foi considerado o melhor filme brasileiro pela crítica presente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A justificativa do júri diz: “Pela forma original de revelar um universo com olhar aberto ao novo e aos encontros. Pela habilidade de unir atores de formação e de vida, pela coragem de promover o diálogo entre as linguagens.”