Feminismo domina cena no primeiro dia de debates em Tiradentes

Cena da cerimônia de abertura na Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Jackson Romanelli/Universo Produção

Cena da cerimônia de abertura na Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Jackson Romanelli/Universo Produção

Era inevitável que o tema da Mostra de Cinema de Tiradentes transbordasse para muito além do que estava proposto. Oficialmente o conceito da programação gira em torno do Cinema em reação, cinema em reinvenção. Oficialmente.

Na prática o papel da mulher no cinema dominou até agora todas as atividades que tiveram a participação das homenageadas, as atrizes e diretoras Helena Ignez e Leandra Leal. O ponto alto dessa virada temática foi durante o debate realizado na tarde deste sábado.

Helena Ignez e Leandra Leal estavam lá, prontas para falar sobre suas carreiras, como atrizes autorais que são e como diretoras. Na mesa, foram acompanhadas por quatro homens, sendo dois críticos de cinema. Da plateia, surgiu a pergunta/provocação bastante pertinente feita pela jornalista Samantha Brasil. Cade as mulheres críticas na mesa? Mais uma vez é o olhar dos homens direcionado às mulheres?

As homenageadas concordaram e curtiram a sacudida. O debate ficou muito melhor. Saímos de uma análise que até então estava voltada para as composições de uma e outra em seus respectivos trabalhos e chegamos a uma abordagem que afeta muito mais gente.

“Além de ter uma representatividade maior no cinema a gente tem que contar mais as nossas histórias”, ressaltou Leandra Leal. “Feminismo reúne todos os desejos de pacificação, de diminuir as desigualdades, o humanismo”, disse Helena Ignez.

Sempre pacificadora e com ponderações de muita sabedoria, Ignez ressaltou o quanto esse cenário já se transformou. “O cinema de invenção feito nos anos 70 e 80 não tinha mulher nenhuma. Não se acreditava que a mulher pensasse. O cinema novo foi de uma masculinidade muito opressora”, criticou.

Leandra Leal se pôs a pensar nos filmes que fez ao longo da vida. Não foram poucos. Mesmo assim, nos cerca de 30 longas, não encontrou nenhum papel em que fosse uma mulher que tivesse trajetória parecida com a jornada de um herói. E tem mais: nenhum deles foi dirigido por alguém do sexo feminino.

Helena Ignez exibe na tarde deste sábado o longa Ralé, dirigido por ela. A Mostra de Cinema de Tiradentes começou com a projeção do documentário Divinas Divas, dirigido por Leandra Leal.

Um texto assinado por Grace Passô foi lido como parte das homenagens. Confira:

Texto de Grace Passô lido na abertura da Mostra de Cinema de Tiradentes

“Eu sou mulher. Eu sou menina. Eu sou muitas. Sou todas numa só.
Eu também sou dessas, sou daquelas. Sou o que eu quiser!
Dessas que produzem seus próprios discursos, tijolo por tijolo.
Que mudam o eixo da tela, no coração do cinema marginal, no borogodó do teatro rival.
Daquelas que nos mostram outras margens do país.
Dessas que se fazem divas, divinas, que tem orgulho de ser marginal, que tem orgulho da ralé.
A mulher que nina a vanguarda no colo e a que canta pra vanguarda acordar.
Daquelas que escolhem suas próprias belezas, que abrem teatros e caminhos.
Dessas que seguram suas próprias câmeras, seus próprios estandartes.
Das que atravessam moinhos, fazendo arte em plena ditadura.
Dessas que estão nas telas.
Nosso tempo exige que procuremos por nossos faróis.
Que procuremos por aquelas que apontam a luz pra alguma direção.
Aquelas que FAZEM das telas um chão
Um chão pra um novo Brasil que oxalá virá, algum dia, pleno de sol, forte como uma mulher.
Sou diversa, assim como você.
Reconverso, o espelho te vê.
Sou vento forte, derrubo barreiras, vou longe,
Não tenho medo, com você, sou grande
Mulheres com mulheres com mulheres, com mulheres”

Confira a programação completa www.mostratiradentes.com.br

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.