‘Cão sem plumas’: a arte sobre o inadmissível de Deborah Colker

Cão sem plumas da Cia de Dança Deborah Colker. Crédito: Cafi

Deborah Colker não teve o menor medo. Mesmo com o alerta de Cláudio Assis – sim, o cineasta e novo parceiro de trabalho – sobre risco de briga entre cinema e dança, a bailarina não se importou. “Tem que estar tudo ali. O que for mais espesso, fica. Não tem essa briga”, reproduziu no seu tom elétrico de ser.

Cão sem plumas – a nova coreografia que chega ao palco do Sesc Palladium nos dias 05 e 06 de agosto – é assumidamente as duas coisas: um filme e um balé. Forte, muito forte. A nova coreografia da Cia de Deborah Colker se inspira no poema O Cão sem plumas, publicado por João Cabral de Melo Neto em 1950.

No papel, são rimas que falam do rio Capibaribe, da vida ribeirinha, da dificuldade de ser homem e de ser cão no sertão. Nos corpos, as metáforas amplificam tudo isso. Os bailarinos são homens-caranguejos, cobertos por lama, o que pode levar a uma leitura relacionada à tragédia de Mariana. Não foi nisso que ela pensou, mas não deixa de ter a ver.

“O João Cabral fala do Capibaribe mas são todos os rios do mundo. São todos os descasos, com o rio, com o ribeirinho, com as pessoas, com as crianças, com a respiração do ser humano e com a respiração da terra”, explica a artista no camarim do Theatro Municipal do Rio de Janeiro minutos depois da primeira sessão carioca.

São 70 minutos e, destes, em cerca de 50 está presente a forte relação entre a dança e o cinema. A trilha sonora, assinada por Jorge Du Peixe, do Nação Zumbi e Lirinha, carrega referências não óbvias da sonoridade nordestina. É mesmo o mais melódico e menos acrobático do que os últimos trabalhos. Tanto em sonoridade quanto em movimento.

Cão sem plumas, assim como o poema, é árido, atual e universal. O cenário de Gringo Cardia leva para o palco – além da tela imensa – gaiolas usadas como armadilhas para caranguejos. Sinal claro sobre as diversas armadilhas que os homens criam para si mesmos a partir do momento em que passam a ter uma relação demasiadamente exploratória com a natureza.

O tempo inteiro o balé apresenta essa conflituosa relação. Pode haver harmonia? Claro, mas o desenvolvimento traz também armadilhas, várias. Tais como aquelas que armamos para os caranguejos.

O filme dirigido por Cláudio Assis em parceria com Deborah Colker é um retrato fiel da trajetória dos dois artistas. Ao mesmo tempo em que é cru, áspero – como são os filmes de Assis –  é belo, como são as criações de Colker.

Cão sem plumas da Cia de Dança Deborah Colker. Crédito: Cafi

O COMEÇO

Foi a frase “O sangue de um homem é muito mais espesso do que o sonho de um homem” que impactou Deborah. Enquanto enfrentava o trânsito de 3h do percurso da Zona Sul carioca até a Barra, resolveu se dedicar à leitura poética.

Ela que teve laços estreitos com Pernambuco no passado, há mais de 30 anos não lia as palavras de João Cabral. Foi um reencontro. “Esse poema é contundente, árido, atual e universal. Me conectei com o mais fundo e profundo que estou vivendo”, conta. Isso foi há três anos.

Naquela época, Colker vivia a experiência de criar Ovo para o Cirque Du Soleil e finalizava duas adaptações literárias com a própria companhia no Brasil. Tatyana se inspira em Alexander Pushkin e Belle em A bela da tarde, de Joseph Kessel. De lá até o início do processo do espetáculo propriamente dito teve Copa do Mundo, Olimpíadas, tudo com o envolvimento de Deborah.

Cão sem plumas da Cia de Dança Deborah Colker. Crédito: Cafi


RESIDÊNCIA ARTÍSTICA

No segundo semestre de 2016 ela e seus 13 bailarinos se jogaram no sertão acompanhados de Cláudio Assis e suas câmeras. Passaram três meses por lá. Dançaram na terra craquelada, no rio caldaloso e também em suas partes já muito minguadas, no meio dos canaviais.

Era para ser oito dias de filmagens. Foram 24 dias. Boa parte do que foi captado está na tela/cenário de Cão sem plumas, que em breve também será um documentário.

O mesmo espetáculo que está no palco é o que aparece em belíssima fotografia na tela. Em muitos momentos o encontro do cinema com a dança dá tridimensionalidade às metáforas de João Cabral. Parece que o bailarino saltou do cinema e vice-versa. É poema no corpo, lambuzado.

“Tem uma invasão, uma não-fronteira. Como se a tela fosse o lugar daquele palco. O poema é muito geográfico”.

As primeiras apresentações de Cão sem plumas foram em junho em Pernambuco. Desde então, Déborah tem ouvido que se trata do trabalho mais brasileiro que fez na carreira. Ela discorda. “Todos são, mas é a primeira vez que tem uma geografia brasileira e que poderia ser em qualquer lugar do mundo”.

Nas palavras da bailarina, João Cabral de Melo Neto é “um danado”. Fala do que é essencial. O problema, como ela observa, é que há uma dispersão geral que afeta a condição humana. Vivemos em uma sociedade super consumista que busca algo distinto daquilo que o poeta prega.

“Esses cães sem plumas vivem uma tragédia ao mesmo tempo em que são guerreiros. Aquele lugar é deles, é meu. Afirmar quem você é, na terra em que nasce, é muito importante. Precisamos de nossas raízes, da genealogia de família e amigos”.

Arte e ciência como filosofia de Deborah Colker 

Deborah Colker diz que Cão sem plumas tem muito a ver com o que ela está vivendo na história pessoal. O neto, Theo, tem epidermólise bolhosa, uma doença genética não contagiosa cuja busca pelo tratamento se tornou uma causa importante na vida da artista.

A coreógrafa defende que a história do Brasil com a ciência é muito imediatista. “Quando sento para conversar sobre terapia genética, sobre arte, falo de questões que são importantes agora mas estão ligadas ao que vem lá na frente”, diz.

Talvez influenciada sobre seu próprio momento, quando pergunto o que lama significa para ela, Deborah Colker olha para baixo, esboça um leve sorriso e responde: “Lama para mim é pele”.

Para ela, arte é uma questão filosófica, do homem ser melhor, de questionar nossos valores. “Este espetáculo, para mim, é sobre o inconcebível, o inadmissível. E ponto”.

[O QUE] Cão sem Plumas, Cia. Deborah Colker  [QUANDO] 05 de agosto,21h, 06 de agosto, 19h [ONDE] Grande Teatro (rua Rio de Janeiro, 1046, Centro, BH, (31) 3270-8100) [QUANTO] Plateia I e II – R$ 110 (inteira) R$ 55 (meia) R$ 44 (comerciário) I Plateia III – 50 (inteira) R$ 25 (meia) R$ 20 (comerciário). [COMPRE AQUI]