‘Vaga carne’ desafia sentidos ao provocar caos semiótico

Grace Passô em “Vaga Carne”. Crédito: Lucas Ávila

É muito bom acompanhar a carreira de um artista e perceber que a cada passo dado a maturidade se mostra presente. Entre tantos outros, este é o caso da atriz, dramaturga e diretora Grace Passô. Ela chega a Belo Horizonte com o monólogo Vaga carne, em cartaz no Sesc Palladium.

A ocasião motivou matéria publicada no jornal Estado de Minas desta terça (04/04) LEIA AQUI e também uma crítica, ou melhor, um ponto de vista sobre o espetáculo. A ideia é convidar os artistas a dialogarem com este texto. Grace, o convite está feito! Assim que puder, deixe suas impressões!

É tão difícil falar sobre Vaga Carne quanto entender. O solo de Grace Passô não é nada óbvio. Felizmente! Se ela diz que faz parte de um projeto teatral que tem entre seus nortes o desejo de construir estranhamentos, o resultado é uma radicalização disso. Em outras palavras: é para embarcar, não decifrar.

Vaga Carne distancia o espectador do lugar cômodo, doutrinado a consumir historinhas bem contadas. A peça promove um caos semiótico generalizado, ou seja, nada é o que parecer ser. Os significados dados no palco são espaços para uma compreensão bem mais ampla sobre termos cotidianos. Por meio do teatro, Grace tenta estimular o público a criar um olhar que seja menos normativo. Você olha e não sabe o que vê. A personagem é uma voz, uma mulher, uma carne, uma matéria, um pato, uma mostarda, tudo ou nada disso?

São apenas 50 minutos de uma crítica reversa. Se vivemos em uma sociedade viciada em rótulos, nomes e descrições sistemáticas sobre coisas e pessoas a experiência da peça faz um convite diferente. É metafórico porque é teatro mas, e na vida? Será que as coisas tem que ser o que sempre foram?

Grace poderia não ter conseguido chegar ao espectador se não fosse o conjunto que leva para a cena. A luz (Najda Naira) e a música (Ricardo Garcia) atuam como parceiros de cena. Tem completo domínio de voz e corpo. Aliás, são estes os principais elementos que utiliza para falar sobre o indizível. A atriz/dramaturga/diretora parte de um corpo inerte, atravessado por vozes e significados que só podem tomar forma diante do público por meio dos gestos.

Abacates caindo do chão, como foi em Por Elise (2004), ou hipopótamo criado dentro de casa, como foi em Amores Surdos (2005), ambas peças criadas com o Grupo Espanca!, são dispositivos complementares na almejada construção da dramaturgia do estranhamento de Grace Passô. Em nenhum caso é absurda. A artista só convida a ver o mundo de uma forma diferente. Menos real, mais poético. Com mais lirismo (Por Elise), afeto (Amores Surdos) e agora bastante amplo em sentidos.

SERVIÇO

[O QUE] Vaga Carne, com Grace Passô
[QUANDO] Quarta (05) e quinta (06), 21h; sexta, 19h e 21h; sábado, 18h e 21h.
[ONDE] Sesc Palladium Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046, Centro, BH (31) 3270-8100).
[Q

UANTO] R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

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