09 mar 2017

[CRÍTICA] ‘Insubstituível’ destaca o valor da vocação no mundo capitalista

O médico de família Jean-Pierre atende na zona rural do interior da França. Crédito: Jair Sfez

Todas as vezes que me deparo com uma comédia francesa fico imaginando a força que o gênero tem por lá. Tanto que comédias como Insubstituível, Os Intocáveis, por exemplo concorrem com frequência ao Cesar, o principal prêmio do cinema francês.

François Cluzet, o protagonista dos dois filmes, concorreu em 2017 ao trofeu de melhor ator. Volto a dizer: por uma comédia.

Há quem defenda que essa combinação … comedia e prêmios não dê muita liga. Bobagem.

Os franceses não fazem comédias para o público rir. Distrair é um verbo melhor. São filmes leves, que se aproximam dos costumes do país. Colocam uma lente de aumento em determinados modos de vida. Não zombam ou ridicularizam.

Crédito: Jair Sfez

Insubstituível, longa que a Cineart Films traz as salas brasileiras, vai por esse caminho. O nome em francês é algo parecido como Médico de Família. Retrata sem peso –  com certo romantismo – o dia a dia de quem se dedica a cuidar da saúde da população de pequenas cidades.

Tudo começa quando Jean-Pierre, o médico de uma cidadinha, recebe o diagnóstico de câncer. Logo pensei “… ih lá vem aquele dramalhão”. Negativo. É um filme que foge do melodrama e paga um preço por isso. É bastante convencional ao retratar a vida no campo.

Para se tratar, o médico precisa diminuir o ritmo de trabalho. A contragosto, recebe e começa a treinar uma colega. Nathalie Delezia (Marianne Denicourt) é tão dedicada quanto persistente. O embate entre eles também não tem nada a surpreender. Ele é o sênior turrão que se mostra inseguro diante da aprendiz.

O longa tem pouquíssimas curvas de tensão. A história é linear. A psicologia dos personagens é simplória, mesmo diante da relação diária com a morte. Para resumir, um filme de sessão da tarde.

Insubstituível tem grandes planos, paisagens, estradas. Ao mesmo tempo, as cenas em que pessoas aparecem, o plano é fechado. Talvez porque o interesse maior do longa dirigido por Thomas Lilti seja destacar a humanidade de cada um dos personagens.

Aliás, não é a primeira vez que o diretor de 41 anos se aproxima deste universo. O ambiente hospitalar também era destaque em Hipócrates (2014). Insubstituível é o segundo longa da carreira. O recado, até agora, parece ser sobre a importância de se retomar a ideia de vocação.

De certa forma ela é contrária ao que prega o capitalismo e até o que pode se considerar a figura bem sucedida na profissão. O vocacionado não se importa com dinheiro. Faz aquilo porque não conseguiria fazer de outro jeito. Não vive sem. Que o mundo profissional – em especial a área da saúde – tenha mais pessoas vocacionadas como Jean-Pierre.

EM TEMPO

Insubstituível marca o início do trabalho da Cineart como distribuidora de cinema. A proposta é valorizar a produção local e extrapolar as grandes produções. O calendário de lançamentos previstos está  “O que queremos para o mundo”, do diretor mineiro Igor Amin,  a premiada produção que fala sobre a vida da poetisa americana Emily Dickinson, “Além das Palavras”, dentre outros.

 

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