‘Gritos’ é a emocionante combinação entre técnica, estética e força poética

A dupla André Curti e Arthur Luanda Ribeiro desenvolve trabalho em teatro gestual. Crédito: Renato Mangolin

Quem fica no pátio interno do CCBB-BH e arrisca olhar o semblante de quem sai da sessão de Gritos, da Cia Dos à Deux, em cartaz por lá até 12 de junho, deve se assustar com a tristeza. É uma jornada que não passa de uma hora. Pouquíssimas palavras são ditas durante esse tempo. Mas o silêncio que se dá depois da peça diz muito. É a tradução de uma sensação de sufocamento.

Se para quem faz, Gritos parece ser uma experiência radical em termos de técnicas teatrais, é desafio semelhante para quem vê. É para decifrar ou sentir? Essa dualidade existe? Entender ou se deixar levar? Cada um faz o que dá conta. Deixando os aspectos emocionais de lado, não há como ignorar a presença de um trabalho teatral de excelência técnica e estética.

A peça é a 11ª montagem da Cia Dos à Deux, formada pelos brasileiros André Curti e Artur Luanda Ribeiro e radicada em Paris desde 1997 e também no Rio de Janeiro. Para a nossa felicidade, praticamente todas as montagens estiveram em cartaz em BH. O Festival Internacional de Teatro Palco e Rua, o Fit-BH, fez a revelação da dupla com Aux Pieds de la lettre em 2001. Depois disso já vimos Saudade em Terras d’água (2005), Fragmentos do desejo (2009), Ausência (2012) e Irmãos de sangue (2013).

Por que lembrar a trajetória é importante? Porque Gritos (2017) é demonstração de que arte se faz com inquietação, investigação, perseverança e técnica. No caso de André e Artur, muita técnica sustentada por um olhar para o mundo de hoje que é, ao mesmo tempo, político e poético.

Os temas urgentes de Gritos

Amor, diferença e exclusão são temas que perpassam o repertório da Dos à Deux.  No espetáculo em questão viraram gritos urgentes contra a crescente intolerância do mundo. E pior que ela existe em várias frentes. O que é muito curioso já que se trata de um espaço em que a fala não é protagonista. Os sentidos vem do gesto, da força das expressões e da combinação de elementos que são bastante caros à composição linguagem teatral: a luz, o cenário e a ambientação sonora.

André Curti e Arthur Luanda Ribeiro são responsáveis pela concepção, dramaturgia, cenografia e direção. Ou seja, praticamente tudo. Em meio a uma instalação formada por estruturas de colchões de mola (uma metáfora sobre muros inócuos, paredes e outras separações que o homem insiste em erguer) eles contam histórias de três pessoas. O que elas têm em comum é a vontade de continuar: ser quem se deseja, a pensar com a própria cabeça e a simplesmente poder viver.

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Tramas

Louise é uma transexual que cuida de uma idosa. Em meio às rejeições cotidianas é resiliente na busca por si mesma. A segunda parte da montagem conta o drama de um homem que literalmente perde a cabeça ou, como descreve o programa da peça, “aquilo que nos torna o quem somos”. Quase uma coreografia dramática, a cena revela o embate travado entre a razão e a emoção. Por fim, encontramos a guerra. A trama de Kalsun faz pensar no amor – em quantidade e qualidade – possível em um cenário de destruição e busca por sobrevivência.

Em tempo: como os temas não são apresentados de maneira óbvia, estas nada mais são do que interpretações daquilo que vi. O que não resta dúvida é sobre a qualidade estética da nova criação da Dos à Deux.

Há uma impressionante simbiose entre atores e bonecos. Em certo momento da peça, já não se distingue mais as fronteiras daquilo que é humano ou não. As imagens vão se transformando na cabeça da gente. Se no início vê-se um boneco, logo depois vê-se uma mulher em processo até se conhecer Luísa, inteira. Eis aqui um sinal claro da cumplicidade alcançada no jogo teatral.

[O QUE] “Gritos, Cia Dos à Deux” [QUANDO] Até 12 de junho, 20h [ONDE] CCBB BH raça da Liberdade, 450, Funcionários, BH, (31) 3431.9400) [QUANTO] R$ 20 (inteira) R$ 10 (meia) [COMPRE AQUI]