As atrizes Octavia Spencer, Taraji P. Henson e Janelle Monáe em 'Estrelas além do tempo'. Crédito: Fox Films
02 fev 2017

‘Estrelas além do tempo’: sobre resistência e inteligência nos bastidores da corrida do homem à Lua

Estrelas além do tempo recebeu três indicações ao Oscar. Melhor filme, roteiro e atriz coadjuvante para Octavia Spencer. De fato ela rouba a cena quando aparece, mas o destaque mesmo é Taraji P. Henson, ou melhor, sua personagem Katherine G. Johnson.

Quem foi ela? A matemática, negra, viúva, que nos anos 1960, foi a responsável por calcular a trajetória da viagem que fez o primeiro americano chegar ao espaço.

Por mais que a sinopse de Estrelas além do tempo diga que se trata da história de três mulheres negras americanas que participaram do então ambicioso projeto da Nasa, é em torno dela que gira maior parte da trama. Fiquei querendo saber mais das outras.

O roteiro baseado no livro de Margot Lee Shetterly dedica pouco espaço para conhecermos as habilidades de Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) em descobrir como os computadores da época poderiam ajudar a missão. Falta também mais espaço para a luta de Mary Jackson (Janelle Monáe) para se tornar a primeira engenheira negra do estado.

Estrelas além do tempo não deveria ser um filme de uma protagonista. Inclusive, o longa produzido pelo cantor Pharrell Williams conquistou o prêmio de melhor elenco no SAG Awards.

De toda forma é uma produção oportuna para 2017. Estreia um ano depois da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood ter reconhecido que o Oscar é mesmo uma festa branca e isso teria que mudar. É um começo.

Estrelas além do tempo não diz só sobre a questão da raça. Tem também a perseverança feminina em conquistar seus espaços. Inteligência emocional não faltou à essas três. Há discrição na luta. As vitórias são fruto de competência e merecimento.

As atrizes Octavia Spencer, Taraji P. Henson e Janelle Monáe em 'Estrelas além do tempo'. Crédito: Fox Films

As atrizes Octavia Spencer, Taraji P. Henson e Janelle Monáe em ‘Estrelas além do tempo’. Crédito: Fox Films

Segregação e feminismo

É um filme leve que deixa muitas marcas. A segregação racial e a diferença de gênero são as mais gritantes. Tudo “rodado” de maneira sutil e até com humor. Por exemplo, naquela época negros e brancos não podiam usar a mesma biblioteca, o banco no ônibus ou até o banheiro. Isso significou um drama para Katherine quando foi transferida para o departamento da missão espacial. Precisava andar cerca de 1km para fazer um xixi. As corridinhas dela para os momentos de necessidade fisiológica misturam graça e crítica.

Como se trata das décadas de 1950 e 1960, a reconstrução histórica se dá principalmente no figurino e na direção de arte. Nada que contraste ou se sobreponha à trama. A presença dos quadros negros onde eles faziam as contas chama atenção para o peso – e importância – das habilidades e competências pessoais. No caso, das mulheres que fizeram diferença na história.

Inclusive, outro momento chave para lacrar o empoderamento, é a luta de Mary Jackson (Janelle Monáe) para entrar na faculdade de engenharia. “Planejo ser uma engenheira na NASA. Mas não conseguirei sem estudar naquela faculdade de brancos. E não posso mudar a cor da minha pele. Então, não tenho escolha, exceto ser a primeira”.

Além de Octavia Spencer e Janelle Monáe, Kevin Costner é outro que manda bem como o exigente Al Harrison, o chefe de Katherine G. Johnson. Um homem aparentemente rude mas que demonstra ter sensibilidade e bom senso no comando da equipe. Sem drama e com muita objetividade.

O roteiro de Estrelas além do tempo é cheio de frases potentes. Uma delas é: “Não se solicita liberdade. Liberdade nunca é dada aos oprimidos. Precisa ser conquistada, tomada”. A síntese do exemplo que Katherine, Dorothy e Mary deixaram para a história.

Saiba onde o filme está em cartaz em Belo Horizonte

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