Os atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em 'O apartamento'. Crédito: Pandora Filmes/Divulgação.
06 jan 2017

A moral e suas dores no filme iraniano ‘O apartamento’

Os atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em 'O apartamento'. Crédito: Pandora Filmes/Divulgação.

Os atores Taraneh Alidoosti e Shahab Hosseini em ‘O apartamento’. Crédito: Pandora Filmes/Divulgação.

Nem sempre um desmoronamento é algo físico. É um sentido mais alargado do termo que o cineasta iraniano Asghar Farhadi persegue em O apartamento (2016). O longa sucede os incensados A separação (2011), que rendeu ao diretor uma indicação ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira e O passado (2013).

Na primeira sequencia de O apartamento um prédio ameaça desabar por causa de escavações – provavelmente irregulares – no terreno vizinho. Asghar Farhadi filma a correria pela sobrevivência com objetividade e maestria.

O foco está na história que pretende construir. Ou seria o homem que pretende desconstruir? Ali interessa contar como protagonista era um cidadão de bem, porém passível de rachaduras.

O ator e professor Emad Etesami (papel do ótimo e contido Shahab Hosseini que também fez A separação com o diretor) é solidário, capaz de colocar a própria vida em risco para salvar o outro. Mas o trincar de paredes e janelas acaba gerando também fendas inesperadas na vida dele.

Emad e a mulher Rama (Taraneh Alidoosti), que também é atriz e assim como o marido faz parte do elenco da montagem de A morte do caixeiro viajante, clássico de Arthur Miller, são obrigados procurar outra morada. Aceitam a ajuda de um colega de elenco sem saber o que o passado do imóvel afetaria tanto o presente deles.

Rama é atacada dentro de casa. Em geral, o subentendido tem mais força.

Asghar Farhadi não precisou mostrar o ato de violência e nem mesmo detalhar a agressão para trazer ao filme discussão sobre machismo, sobre o que representa em uma sociedade baseada em valores religiosos rígidos e o que bastaria para ferir a moral de um homem iraniano que convive com a revolução Islâmica.

Mesmo focando em um personagem, Asghar Farhadi constrói uma narrativa em camadas que prende a atenção do espectador, em especial os 30 minutos finais.

A relação entre a jornada de Emad e Willy, o Caixeiro Viajante na peça de Arthur Miller tem paralelos. Os dois convivem com dramas que unem passado e presente trazendo à tona conflitos sociais e familiares capazes de destruí-los pouco a pouco.

Os silêncios são longos e dizem muito em O apartamento. A partir do momento em que o conflito é dado, o não dizer demonstra uma dificuldade – até mesmo cultural – em lidar com temas de ordem íntima.

Asghar Farhadi explora o vazio de diversas formas. O não ter onde morar, não ter o que falar e não saber como agir. São esses outros desmoronamentos, talvez os de alma, que fazem de O apartamento um filme instigante, profundo e atual.

Em tempo: O apartamento concorre ao Globo de Ouro de Melhor Filme em língua estrangeira e está na finalíssima para uma das vagas do Oscar, na mesma categoria.

 

Gostou? Compartilhe!

Artigos Relacionados

O primeiro homem: experiência com grife Damien Chazelle

Não há dúvidas de que o diretor de O primeiro homem, Damien Chazelle, é um garoto prodígio. Aos 33 anos ele já recebeu três indicações ao Oscar e tem uma estatueta em casa pela direção de La La Land (2016). Mas não é isso que faz dele um jovem cineasta fora da curva. É o […]

Leia Mais

Carta-crítica para Lady Gaga sobre ‘Nasce uma Estrela’

Cara Lady Gaga, Tudo bem? Embora o formato desta crítica não seja lá muito tradicional, escrever uma carta para você foi o que me deu vontade de fazer ao sair da sessão de Nasce uma estrela. Se algum fã se interessar em traduzir, ficarei grata! Confesso que conheço pouco da sua carreira mas, no ano […]

Leia Mais

Spin-off de Invocação do Mal, ‘A freira’ entrega o que promete

Campeão na bilheteria americana logo na estreia, A Freira é um spin-off de Invocação do Mal 2 (2016). Chegou ao cinema cercado de expectativa já que, de certa forma, dá continuidade a elementos desta que é considerada a maior franquia de terror de todos os tempos. É o retorno da personagem que naquela ocasião andava […]

Leia Mais

Comentários