Os encantos da arte e da loucura são forças no monólogo ‘Bispo’ com João Miguel

Cena do monólogo Bispo, com João Miguel

É muito bonito se deparar com um ator cuja ligação com o personagem é tão forte como acontece com João Miguel e Arthur Bispo do Rosário (1911-1989). Tanto é que, se a carreira dele no cinema deslanchou depois dessa montagem, foram poucos os retornos ao palco nos últimos 15 anos. O reencontro deles, em 2017, é significativo e emocionante.

Arthur Bispo do Rosário foi um artista plástico sergipano diagnosticado com esquizofrenia paranoide. Bispo viveu muito tempo dentro de um hospital psiquiátrico, a colônia Juliano Pereira, em Jacarepaguá. Era neste local – supostamente inóspito para qualquer senso criativo – que ele tecia, bordava, desenhava, criava mundos poéticos para si mesmo. Fez mais de 900 obras ao longo da vida.

João Miguel – cujo trabalho como ator surge no circo, precisamente na arte do palhaço – não conta a história de Bispo. No monólogo ele incorpora o personagem de tal forma que desperta a dúvida sobre limiares: ator/personagem, loucura/lucidez. Ao longo dos pouco mais de 60 minutos somos dominados por uma atmosfera lírica, pouco lúcida, extremamente poética.

Tem algo de transcendental nessa peça. Talvez porque o processo criativo de Arthur Bispo do Rosário se conecte mais com algo espiritual do que propriamente racional. Os criadores da montagem respeitam a natureza dele.

Elementos complementares

Pelo papel João recebeu uma indicação ao prêmio Shell em 2003. Mas não é só a atuação que merece louros. O cenário, de Doménico Lancelotti e Marepe Zuarte e Jr., é outro elemento importante. É praticamente uma instalação artística que acolhe João e Bispo. Não é apenas bonito, mas também funciona como dramaturgia. Até a plateia tem um papel a cumprir. (Não precisa preocupar porque a peça não é interativa eheheeheheh).

E o manto? Além da simplicidade e da beleza dos bordados, o grande tecido que o ator carrega o tempo inteiro é também personagem. Parceiro constante de João e Arthur.

A direção é do próprio João Miguel em parceria com o autor do texto, Edgard Navarro. É bonito ver como eles se distanciam da biografia tradicional e permitem que o público se aproxime – ainda que de maneira ficcional – da sensibilidade daquele homem. Como ele se relacionava com a arte, com a palavra, a poesia e com as pessoas em sua volta. A cumplicidade com a psiquiatra Rosângela Magalhães também é abordada.

Saí do teatro emocionada com potência do encontro entre ator/personagem e com muita vontade de conhecer mais sobre a obra de Arthur Bispo do Rosário.