‘Baronesa’ abre Mostra Aurora com potência e polêmica

Cine Tenda lotado para a sessão de 'Baronesa'. Foto: Jackson Romanelli/Universo Producao

Cine Tenda lotado para a sessão de ‘Baronesa’. Foto: Jackson Romanelli/Universo Producao

A Mostra Aurora começou desnorteando os espectadores que marcaram presença no Cine Tenda em Tiradentes. Aliás, o conjunto de projeções de segunda-feira foi marcado pela força do cinema dirigido por mulheres. Em especial, Baronesa, longa de Juliana Antunes e o premiado curta Estado Itinerante, de Ana Carolina Soares (texto em breve).

Candidato ao troféu Barroco, Baronesa é o primeiro filme da vida de Juliana. Fora da curva, ela não passou pelo curta, caminho mais convencional na carreira de um cineasta. A produção é forte como um soco e bastante polêmica.

Baronesa é classificado como um filme de gênero híbrido. Isso significa que o tempo todo você se pergunta o quanto daquilo que vê na tela é ficção ou documentário. Juliana Antunes e equipe se instalaram na Vila Mariquinha e registraram lá a rotina de Andreia e Leidiane (a Leid), amigas e vizinhas. Baronesa é a vida delas.

A pesquisa começou com uma curiosidade. A diretora observou que vários ônibus que passam pelo centro de Belo Horizonte levam a bairros com nome de mulher. A equipe resolveu embarcar em todos eles para ver até onde iam. Assim chegaram ao destino onde conheceram as personagens.

Andreia e Leid vivem no Bairro Juliana, zona norte de Belo Horizonte, onde existe uma guerra de tráfico. Andreia quer mudar para o Baronesa, o bairro vizinho. Enquanto junta dinheiro fazendo unha para construir a nova casa, compartilha sua visão de mundo, seus afetos, seus desejos e seu vazio com a câmera de Antunes.

É incrível como a diretora consegue se fazer invisível. Isso dá mais força para cada uma das cenas. Coloca o espectador na dúvida constante: peraí, estou vendo um documentário ou uma ficção?

Embates, debates

Durante o debate, a cada pergunta é como se Juliana tivesse seguido mais a intuição do que a razão. “Empalavrar” o que está na tela parece ser é uma tarefa pesada demais para ela. Difícil ou até impossível para dar conta do que foi o processo de Baronesa e no que o filme se tornou.

O docudrama não teve roteiro. Sua verdade está na relação construída com as personagens. Como também foi abordado durante o debate, em ótima colocação de Tatiana Carvalho Costa, Baronesa obriga o espectador “comum” ver modos de vida que são desconhecidos das classes dominantes.

Da diretora também. Com humor e deboche Leid conta que quando Antunes chegou na favela para filmar levou a tiracolo um kit de primeiros socorros no caso de tomar um tiro. A caixinha continha merthiolate, esparadrapo, faixa e anti-inflamatório. A informação corrobora o fato de Juliana, a cineasta, ter encontrado no Juliana, o bairro, um mundo muito diferente do dela.

Cena do filme 'Baronesa', que concorre a Mostra Aurora. Foto: Universo Produção

Cena do filme ‘Baronesa’, que concorre a Mostra Aurora. Foto: Universo Produção

Elogios

A força de Baronesa contaminou o debate. Nas Mostras de Cinema de Tiradentes o tradicional encontro da equipe dos filmes com o público é marcado por embates, muitas vezes conceituais. No caso do filme de Juliana Antunes, a plateia elogiou  – muito – e a equipe teve pouco a dizer.

Os apontamentos sobre implicações sociais e até mesmo jurídicas que entraram no filme apareceram em menor número do que depoimentos sobre os atravessamentos despertados.

A atriz Camila Pitanga foi uma das que mais falou. Como todos ali presentes, se mostrou visivelmente impactada. “Quando se manipula vida, pessoas, fico muito curiosa em querer entender até que ponto a vida real estava dominando o fazer, até que ponto havia previsão, roteiro. Como se faz um roteiro quando a Leid e a Andrea estão no seu dia-a-dia?”

O uso da imagem das crianças, os filhos de Leidiane, foi a questão mais polêmica. O filme tem outras como abuso sexual, drogas, sistema carcerário. Qual o limite da ética para o cinema? Qual o nível de consciência sobre estas implicações ao escolher o que entra ou não na versão final? São perguntas que ficam.

“Não tem como evitar. É a vida real mesmo”, ressaltou Andrea. “É a vida que a gente vive, a vida que a gente gosta de viver”, disse Leid. “O que faz o cinema diante dessa cena? Acho que filma”, conclui Juliana Antunes.

Baronesa é um filme tão potente que apenas um debate não dá conta de todas suas arestas. Fica para o tempo a tarefa de cuidar de todas as reverberações que ele provoca.

 

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