Confira o balanço do Festival Vibra, que misturou arte e esporte no Parque Municipal

Festival Vibra 2017 Crédito: Thiago Fonseca

Por Thiago Fonseca*

A ideia de reunir música, arte e esporte ocupando um espaço público deu certo. O Festival Vibra 2017 reuniu competição de skate, basquete, slackline com pintura urbana, feira e música, tudo ao mesmo tempo. Nos três dias de festa, mostrou que a cidade precisa, e pode ser ocupada por cultura acessível, inclusiva e de qualidade.

O Parque Municipal foi o palco dessa mistura. Mesmo novo, em sua segunda edição, o Vibra mostrou potencialidade e exponencial crescimento. Se no ano passado, realizado no Bar do Marcinho, em Macacos, foi apenas um dia de evento, este ano foram três. O número de atrações musicais se multiplicou, de público nem se fale.

“O público hoje não quer só ver um show, ele quer sentir, participar e ter uma experiência como um todo”, explica André Carvalho, um dos organizadores do evento.

Lenine, Nação Zumbi, Flávio Renegado, Graveola e Maneva foram as atrações mais esperadas do festival, que também contou com a participação da Orquestra Atípica de Lhamas, Zevinipim, Lagum, Pequena Morte e Gabriel Elias, além de Velejante, Inquilinos, Seletores Deskareggae, Lucas Rasta, Lelo Youth e Deskareggae sound syatem. As atrações ocuparam o Palco Gramado e o Largo Chico Nunes.

BRASILIDADE

Graveola recebeu a tarefa de abrir a edição do festival. O grupo mineiro apostou em repertório variado com um mix de músicas. O show começou de maneira tradicional. O estilo sereno da banda, com versatilidade de gêneros, instrumentos, timbres e arranjos explorados em suas canções, já mostrou que coisa boa viria pela frente.

Mesmo não tão conhecida, a Orquesta Atípica de Lhamas, em seu quarto show da história, agitou o público com o ritmo caliente de cumbia latino-americana. Que show! Teve quem caiu nas graças e arriscou uns passos no meio da plateia. Manifestações políticas e culturais, em meio ao reggaeton, a lambada, o bolero, o tecnobrega, o ragga e o quarteto, chamaram atenção.

A chilena Claudia Manzo, uma das vocalistas do grupo, encerrou o show dizendo que não era gringa e sim latino-americana. Fez uma crítica ao estereótipo de quem é de fora. Gritos de Fora Temer ecoaram entre o público. A frase “Yo no soy gringo nem a Amazônia será” apareceu estampada na faixa carregada pelos integrantes de diferentes nacionalidades.

Nação Zumbi fechou a primeira noite. O grupo, que promove uma mistura de rock pesado, rap e tambores de maracatu, voltou à capital mineira com o repertório do mais recente trabalho. Os grandes sucessos como “acô”, “Manguetown” e “Maracatu Atômico”, também animaram o público.

Festival Vibra 2017 Crédito: Thiago Fonseca

GROOVE

No segundo dia, Lagum abriu as apresentações. Com o estilo “surf-rock”, o grupo transmitiu boas vibrações e tranquilidade ao público, com as músicas de rock alternativo sem deixar de lado a raiz brasileira. O trio Zevinipim foi o segundo da noite e fez o público dançar com o Groove, suingue e balanço.

O rapper mais querido pelos belo-horizontinos, Flávio Renegado, fez um show especial, logo em seguida. Trouxe ao público um repertório dedicado a Jorge Ben Jor. Com a interpretação do repertório de sucessos e lado B da obra desse grande artista. Renegado não deixou ninguém parado. Que potência!

O último e mais esperado da noite, diria até do festival, foi o cantor e compositor Lenine. O artista trouxe ao Vibra a turnê de seu disco “Carbono”, com canções inéditas. Também cantou grandes sucessos de sua trajetória musical. Que presença de palco! Performático, Lenine se exibia a cada música, o público ia ao delírio.

Trocou de instrumentos durante as canções e deu voz às manifestações políticas. “Não basta só fora Temer. Fora muita gente dos três poderes. Temos que começar de novo”, respondeu às manifestações da plateia. Ao cantar “Chão” não teve um que não correspondeu com muita emoção e euforia.

REGGAE

O domingo, último dia de festival, começou com Pequena Morte. As músicas do novo álbum, Jabuticaba, permeado por fusões musicais e por uma sonoridade despertaram reações sinestésicas no público. Alguns curtiram o som sentados na grama, apreciando o céu estrelado, refletindo as letras que mostram experiências cotidianas e extraordinárias, ilusões e desilusões.

Maneva era esperado como atração principal da noite, mas Gabriel Elias, cercado de convidados, roubou a cena. O fenômeno da internet fez um show de reggae completo. Recebeu no palco Tati, do Chimarruts; Marceleza, do Maskavo; Edu Ribeiro; e Zeider, do Planta & Raiz. Que leveza e simpatia. Sentou no palco, mostrou carinho pelos convidados e público. Bonito foi a hora que a iluminação se apagou e os milhares presentes ascenderam as luzes dos celulares, para iluminar a canção “Anel de coco”.

Festival Vibra 2017 Crédito: Thiago Fonseca

O Vibra terminou com o reggae da banda Maneva. A apresentação foi marcada por momentos para dançar, para refletir e para a plateia se emocionar. “Estamos contentes em participar do festival. Vejo essa iniciativa como uma proposta de fomento artístico e para a construção do ser humano por meio da cultura e música” afirma o cantor e compositor, Tales Polli.

Durante os três dias, o Largo do Chico Nunes foi palco para os DJs que compõem a equipe do DeSkaReggae Sound System. Eles trouxeram os ritmos jamaicanos para agitar o espaço dentro da programação do Vibra. O grupo também recebeu convidados, na sexta-feira, o Uai Sound System, e no sábado o coletivo Família de Rua.

FOMENTO AO ESPORTE

A porta do tradicional Teatro Francisco Nunes foi transformada em uma quadra. A Academia da Rua foi responsável por a promover o Torneio Vibra de Basquete 3×3. Treze equipes se enfrentaram nos três dias de festival. Nos intervalos, quem passou por lá, pode brincar com o esporte.

Outra modalidade em destaque no Vibra foi slackline. Sobre uma fita estreita, o competidor não devia só se equilibrar, mas fazer acrobacias. “Os atletas têm dois minutos para desenvolver o maior número de manobras. Dois árbitros avaliam o nível de dificuldade e amplitude. Ganha o que tiver maior pontuação”, explica Bernardo Maia, presidente da Federação Mineira de Slackline.

“Esse tipo de evento serve para mostrarmos e fomentar o esporte. O Vibra abriu as portas para nós e viemos com orgulho representar o esporte e compor o evento”.

O skate, que tem forte ligação com a música, também teve seu espaço. Uma rampa foi montada no Largo teatro Francisco Nunes para a competição de mini ramp. Para o skatista amador, Rael Madureira, trazer uma competição do tipo para um festival só reforça o potencial do skate e dá oportunidades para os adeptos.

As competições foram simultâneas aos shows. Foi uma opção para quem não queria só contemplar a música. Os espaços sempre estavam cheios de curiosos e amantes dos esportes. “Essa é nossa ideia, trazer um evento completo. Os esportes escolhidos dialogam muito com os shows musicais e agrega”, explica André Carvalho. Todas as modalidades tiveram premiações.

ARTES

Barquinhos de papeis coloridos nas grades, nas barraquinhas e suspensos por todos os cantos do parque, propuseram tanto a troca de objetos de estética amorosa quanto a ocupação poética de espaços em centros urbanos. O trabalho artístico “Trajeto do afeto” é obra da produtora, DJ e artista visual Paloma Parentoni. O fomento aos produtores locais também foi destacado no Vibra com espaço para a feira Nossa Grama Verde e a Feira Fresca.

Um grafite ao lado do Palco Gramado foi feito durante os dois primeiros dias de festival. A arte e a técnica do artista Luis World pode ser vista e apreciada de perto pelo público. A cada grafitada, em meios aos shows, a obra ia ganhando vida. Uma arara, um tucano, um coração, muito verde e o logotipo do evento ganharam vida.

Quem via a produção do grafite jamais imaginava o que viria pela frente. O diálogo com a ocupação do espaço público, a natureza do parque e a música foram pintados interligados por um coração. Seria o diálogo das artes com o principal órgão do corpo. Tudo num só corpo. Assim como o festival. Não bastasse tal maestria, uma projeção mapeada deu vida diferente ao grafite.

*Colaborador do Culturadoria. Sob a supervisão de Carolina Braga.