Armazém Cia de Teatro atualiza Hamlet com tecnologia e boas interpretações

Patrícia Selonk é Hamlet na montagem da Armazém Cia de Teatro. Crédito: Leo Aversa

Em 30 anos de carreira, há pelo menos 20 a Armazém Cia de Teatro inclui Belo Horizonte na rota de todos os seus espetáculos. Isso significa que pelo menos desde Alice, através do espelho (1999), montagem mítica na carreira do grupo, quem gosta de teatro na cidade observa o desenvolvimento da direção de Paulo de Moraes, as experimentações dramatúrgicas dele e de Maurício Arruda Mendonça, a atualização do elenco e o aprimoramento de quem há muito faz parte do grupo.

Ao ver Hamlet é inevitável não fazer paralelo com outros trabalhos. Também se perguntar: onde estão as novas propostas da Armazém? Qual é o teatro que interessa à companhia hoje? É cada vez mais contemporâneo mesmo fazendo um clássico.

A montagem

A escolha por atualizar um texto como este de William Shakespeare diz bastante sobre isso. Armazém reafirma o compromisso com a pesquisa. Faz um Hamlet com coragem de transgredir a literalidade do texto. Digamos: um Shakespeare com outras palavras, bem mais próximas do público de hoje.

Corta sem dó. Acrescenta outras referências. Quebra padrões de gênero. Tudo isso sem ferir a essência de Hamlet.

O vocabulário mais simples adotado pelo grupo tira a pompa que os clássicos carregam. O que é ótimo! Escrito entre 1599 e 1601, o texto costura conflitos pessoais e situações políticas que são atemporais. Diz tanto sobre o funcionamento do indivíduo – com suas questões internas – quanto da sociedade.

Bom também é o uso da tecnologia. Ao entrar no teatro e me deparar com o cenário que é um paredão de janelas, imediatamente lembrei de Pessoas Invisíveis (2002), do próprio Armazém, e também Pequenos Milagres (2007), que Paulo de Moraes dirigiu com o Grupo Galpão. A peça começa e logo as referências se tornam distantes.

O paredão se transforma em uma tela para a projeção do espectro do Rei da Dinamarca, recurso impactante para o início do espetáculo. Assim como nas outras montagens, o cenário tem função. Não é decorativo.

O elenco

A atriz Lisa Eiras como Ofélia é um dos destaques da montagem. Crédito: João Gabriel Monteiro

A peça tem 148 minutos, com um intervalo de dez. Se o primeiro ato é bastante dinâmico, no segundo perde ritmo. O cansaço ganhou a batalha apesar das cenas mais famosas do texto, como o coveiro e o confronto final.

Seja em textos originais ou em clássicos, a força do Armazém sempre esteve na equilibrada costura entre a cena bem realizada e o elenco de alto nível. Patrícia Selonk continua sendo um à parte. Desta vez, como Hamlet, oferece nuances capazes de surpreender mais quem nunca a viu em cena. É uma ótima atriz, sem dúvida. Seu Hamlet reafirma isso.

Me surpreenderam mais Lisa Eiras como Ofélia e Ricardo Martins como Claudius. A jovem apaixonada pelo príncipe da Dinamarca domina tão bem as transições da personagem entre  os estados de paixão, decepção e dor que hipnotiza. A Ofélia dela lembrou a intensidade da composição da atriz Anna Graenzer intérprete da personagem na montagem do Berliner Ensemble, convidada do FIT 2014. É uma mulher que deseja Hamlet, não apenas uma adolescente apaixonada.

Ricardo, por sua vez, chama atenção pelo homogeneidade do cinismo que constrói como traidor da trama. Completam o elenco, Marcos Martins, Jopa Moraes, Isabel Pacheco e Luiz Felipe Leprevost.

Hamlet, da Armazém Cia de Teatro foi visto em setembro de 2017, em Belo Horizonte.